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sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Chaos Synopsis - Discografia Comentada

Quanto mais o tempo passa, mais bandas surgem, tornando o cenário cada vez mais (na maioria das vezes) saudavelmente concorrido. Porém, com o passar do tempo também vem a saturação de determinados segmentos do Rock e Metal que, sendo mais velhos e tendo maior número de bandas, acabam deixando de impressionar o público com a mesma facilidade de outrora, o que leva cada vez mais as bandas a inovarem - daí os novos estilos e mesclas. Muitas vezes, a escolha é simples e polarizada no que diz respeito às opções, mas ambas são igualmente difíceis de tomar: inovar ou arriscar fórmulas já amplamente exploradas?

Frequentemente, a escolha é tomada pelo coração, pelo conforto, pelo prazer - e isso não é uma crítica. Por isso, algumas vezes, para se destacar, se não houver intenções de inovar, de soprar ar fresco na cena, o que resta é fazer o já conhecido pelo público, mas com uma condição: que seja realmente foda para, aí sim, sobressair-se por uma qualidade ímpar. Estar falando isso nessa publicação, evidentemente, só pode significar uma coisa: o Chaos Synopsis é uma dessas.

Não há dúvidas: o Death Metal está saturado, e todos sabem muito bem o que esperar das bandas do estilo. Logo, é preciso ambição, interesses líricos que extrapolem as fronteiras do estilo, criatividade e, claro, competência para que discos atraentes sejam produzidos. Desde 2005, quando foi fundado em São José dos Campos (SP), o Chaos Synopsis vem refinando sua musicalidade e ganhando destaques cada vez mais merecidos através de trabalhos cada vez mais desenvoltos e musicalmente ricos.

Os primeiros anos foram mais devagar. O grupo, composto no início por Daniel Sanchez (vocal), Marloni Santos (guitarra), Jairo Vaz (baixo) e Friggi Mad Beats (bateria) lançou a princípio, em 2006, a demo "Garden of Forgotten Shadows", de cinco faixas, mas a formação estava demasiadamente instável. Por isso, alterações se sucederam, mas sempre com Jairo Vaz e Vitor (hoje conhecido pelo nome Friggi MadBeats) constantes na formação. À altura da primeira single, "2100 A.D.", de 2008, o line-up era um trio composto pelos mesmos indivíduos originais, com exceção do vocalista Daniel Sanchez, o que forçou o deslocamento de Jairo para a posição de vocalista, acumulando a função com a de baixista.

Entretanto, um ano mais tarde, com o advento do EP de três faixas "Postwar Madness" - que inclusive é encerrado com um cover de "Zombie Ritual", do Death -, a formação já havia se alterado novamente, passando a conter apenas Jairo no vocal e baixo e Friggi MadBeats na bateria e na gravação das guitarras.

Com a chegada de JP como guitarrista em 2009, o line-up teve relativa estabilidade como um trio, e assim emergiu o álbum debut do conjunto através da Free Mind Records, um brutal culto de demência: "Kvlt ov Dementia". Esse primeiro registro do Chaos Synopsis se calca integralmente no Death Metal, apresentando uma musicalidade em "circuito fechado", com bastante rigidez e atmosfera pesada. Jairo Vaz investe nos típicos guturais fechados do estilo com violência compatível àquela apresentada no instrumental, que, embora seco e direto, sem enfeites ou firulas, é bem encorpado e tem ótima produção, por mais que aquela sensação de não se tratar de uma gravação de inquestionável qualidade possa ser sentida. O disco é muito bom e simplesmente avassalador e frenético, servindo como cartão postal, logo no início da carreira, de uma banda fiel à execução clássica do gênero.

Entretanto, "Kvlt ov Dementia" não chega a ser esplêndido, e mesmo que seja muito bom, é previsível e ainda não destacava o Chaos Synopsis em meio à outras bandas de pegada similar. Ao longo dos 40 minutos de duração, vemos uma banda engessada, mais crua e sem grandes "ambições", digamos assim. Nem mesmo solos de guitarra aparecem para dar um "boost" na fúria, com exceção do fim da faixa "Spiritual Cancer" - apesar de que a pegada dele é mais melódica. Os paulistas viriam a se refinar melhor nos tempos que se sucederiam, e aí sim a banda desenvolveria uma identidade de fato para si.

De qualquer forma, "Kvlt ov Dementia" foi um registro importante como primeiro passo de uma banda promissora e marcação de presença na cena. Como não poderia deixar de ser, chamou a atenção de fãs e mídia, rendendo positivas críticas que culminaram em shows por todo o Brasil e também fora, com passagens pelo Paraguai e até mesmo, em 2010, uma pequena turnê na Polônia - que rendeu imprescindíveis benéfices aos caras, como amizades com bandas locais, além do contrato com a gravadora polonesa Wydawnictwo Muzyczne Psycho. A turnê deixou como um dos filhos o disco ao vivo "Live Dementia", que foi gravado no Carioca Club, em São Paulo, em janeiro de 2010 e foi lançado de forma independente em setembro, limitado em 33 cópias.

Após o debut, o guitarrista Marloni Santos voltou à banda, tornando-a novamente um quarteto e garantindo o encorpamento musical.

Os anos se passaram, e com eles também se foi aquela rigidez apresentada no debut. Os tempos que o sucederam fizeram muito bem aos paulistas, que amadureceram em simplesmente todos os aspectos. A maturidade foi muito bem usada em favor da banda, que trabalhou duro, com sensível empolgação, dedicação e criatividade.

Dizem que homens com um propósito são indomáveis, imparáveis. Foi mais ou menos isso que aconteceu com o Chaos Synopsis em seu segundo álbum de estúdio, lançado em 2013 pela já mencionada gravadora polonesa. O propósito era o seguinte: transformar arte e chacina em uma coisa só - portanto, nenhum título poderia ser melhor aplicado do que o "Art of Killing". Nesse trabalho, o quarteto toma como norte conceitual insanos assassinatos praticados por serial killers ao redor do mundo. Cada uma das 10 faixas é inspirada em um assassino em série diferente (tais como Febrônio Índio do Brasil, o Vampiro de Hannover, o Zodíaco, entre outros), com direito a uma breve nota no encarte, ao fim de cada canção, explicando os métodos aplicados por cada um, os porquês de seus apelidos, bem como seus reais nomes e estimativas dos números de vítimas.

A madura ideia lírica não ficou apenas no plano teórico, não; o resultado final demonstra que a banda engrandeceu também como letrista, entregando letras muito bem compostas, com trechos até mesmo poéticos, a maioria composta por Jairo e JP. Atrelado a esse desenvolvimento, também está a sensacional arte gráfica, de autoria de Rafael Tavares, que elaborou lindos layouts ao longo do encarte e uma capa que sintetiza toda a crueldade de um assassino em série.

Musicalmente falando, em "Art of Killing", o Chaos Synopsis deixa de praticar integralmente o Death Metal e passa a acoplar também o Thrash Metal como gênero anexo ao Death. O resultado é uma musicalidade menos engessada, mais desenvolta e aberta, que se permite introduzir riffs melhor trabalhados, mais complexos, ao mesmo tempo em que não perde, de modo algum, o peso e arrogância que os estilos oferecem - algo garantido pela impecável produção, que pesou pra caralho a potência das cordas.

A prova de que o Chaos Synopsis continuava violento vem logo na primeira faixa, "Son of Light", que inclusive ganhou um videoclipe e tem trechos em português. Trata-se de um exímio Death/Thrash Metal com maior pendência ao Thrash, onde uma sensível referência ao Slayer é facilmente percebida pelo característico andamento frenético e psicopata. A aliança entre os dois gêneros segue com ardente vivacidade ao longo dos 39 minutos totais do registro, hora com maior incidência Death, hora com maior incidência Thrash.

Tal direcionamento musical também levou a certa alteração na postura vocal de Jairo Vaz, que deixou de optar apenas pelos guturais fechados para incluir também os guturais mais rasgados, tão presentes na junção desses estilos. Sua performance, quase teatral, também é mais uma ode à chacina, já que as palavras são inassimiláveis enquanto canta com o desespero e sede de sangue de alguém prestes a interromper uma vida. Esse é mais um incentivo a ler as letras pelo encarte, que maximizam bastante a experiência.

Eu particularmente sou fã de solos de guitarra, por isso sempre sinto falta deles caso não apareçam, pois fica uma sensação de música incompleta. Se eles estavam praticamente ausentes em "Kvlt ov Dementia", o mesmo não pode ser dito em "Art of Killing", pois neste último eles são abundantes e executados com perspicácia por JP.

Certamente, "Art of Killing" é um trabalho empolgante que apresenta uma banda mais focada, organizando-se em torno de conceitos, objetivos, aliando a maturidade adquirida ao longo dos anos e convertendo-a em boa música e bastante segurança. Coroando essa arte obscura, o álbum ainda encerra com a faixa-título, que além de ser a de maior duração do disco (seis minutos), é instrumental e longe de ser monótona. Nela, violão e violino são introduzidos, enriquecendo uma música muito extremamente bem composta por JP, com variações rítmicas e bastante imersividade.

O segundo álbum rendeu mais uma turnê com diversos shows pelo Brasil e passagem pelo Paraguai em 2013. No ano seguinte, novamente a banda viajou ao outro lado do Atlântico para 16 shows da turnê "European Killing Season", que passou por sete países.

Após a turnê, começaram os preparativos para mais um álbum de estúdio. Porém, novamente, veio uma baixa na formação, com a saída do guitarrista Marloni Santos em 2014. Sua vaga foi preenchida por Luiz Ferrari em 2015, que participou das gravações de mais uma obra de massacre e dominação banhados a muito sangue.

É então que, no mesmo ano, é lançado através da Black Legion Productions mais um excelente álbum, intitulado "Seasons of Red". Herdeiro legítimo das focalizações musicais e líricas iniciadas em "Art of Killing", o terceiro full-length procura explorar o que já foi praticado nos dois álbuns anteriores e expandir a temática vermelha. Ou seja: trata-se de um álbum dignamente Death/Thrash Metal, como a banda já vinha sendo. Todavia, os dois gêneros estão em melhor uníssono, ao mesmo tempo em que a produção deixou a musicalidade mais densa e obscura, remetendo ao "Kvlt ov Dementia". Tal questão é extensiva aos guturais, que estão mais fechados do que foram no trabalho anterior. Em adição, os solos seguem matadores, mas a maioria apresenta uma tendência mais cultural, apostando em uma abordagem voltada à cadência e melodia regadas a generosas doses de referência egípcia.

Pois é; muito embora a capa do álbum - novamente criada por Rafael Tavares, sob conceito artístico de Jairo Vaz - retrate uma visão do imperador romano Nero com suas obscenidades e sede por morte, dando a impressão de que o registro versa integralmente sobre as obscuridades do Império Romano (sensação reforçada pelo layout dentro do encarte, que apresenta, ao longo das páginas, os membros da banda com seus rostos, nomes e funções em moedas de denário, sistema monetário corrente a partir dos últimos tempos da Roma republicana), não é exatamente do que se trata. Na verdade, apenas a faixa "Like A Thousand Suns" fala sobre massacre romano, e justamente o de Nero contra os cristãos. O conceito lírico traçado pela banda para "Seasons of Red" sai do âmbito individual, como o caso dos serial killers de "Art of Killing", e se expande ao âmbito das nações e impérios e seus tortuosos métodos de dominação e chacina sobre outros povos - muitas vezes os seus próprios - ao longo da história.

Logo, no decorrer dos 40 minutos desse excelente e pesado trabalho, temas como as torturas medievais dos tempos da Inquisição, a escravidão realizada pelos faraós no Egito Antigo, a opressão dos bolcheviques sobre os contra-revolucionários ao fim da Primeira Grande Guerra, entre outros são explorados música a música, sempre com o dote sangrento que se tornou marca distintiva do Chaos Synopsis.

Novamente, com o lançamento, mais uma viagem ao Velho Continente foi garantida, tocando 12 shows na "Euro Bleeding Red", além de vários outros no Brasil.

Em proximidade com seu antecessor, "Seasons of Red" estabelece a manutenção das ambições musicais do conjunto e uma excelente administração da maturidade acumulada, além de apresentar uma banda mais segura, embora talvez menos vivaz do que se demonstrou à época de "Art of Killing".

Todavia, isso viria a ser melhor aprimorado no disco seguinte, que seria lançado em parceria com a banda polonesa de Crossover/Thrash Terrordome, fruto de uma amizade iniciada nas viagens dos paulistas à Europa. O split, lançado no início de 2016 pela Defence Records, chama-se "Intoxicunts" e tem apenas 22 minutos de duração, deixando a forte sensação de que poderia ser mais longo. O Chaos Synopsis encerra o trabalho com as três faixas finais, onde duas são inéditas e uma é um brutal cover de "Damage Inc.", do Metallica. Nas duas novas, "Serpent of The Nile" e "Fire On Babylon", o quarteto de São José dos Campos demonstra como refinou aquelas inspirações egípcias iniciadas em "Seasons of Red" e as levou um patamar acima, tornando seu violento e malevolente Death/Thrash Metal firmemente coeso com tais referências, equilibrando os alicerces entre peso e arte.

Apesar do Chaos Synopsis ter menos quantidade de músicas incluídas, cada metade do tempo de duração pertence a uma banda. O negócio é que, como o Terrordome faz Crossover/Thrash, estilo batido caracterizado por músicas mais rápidas, isso acaba fazendo caber mais faixas. Os poloneses é tomam a dianteira nos dez primeiros minutos de pancadaria. "Reflux" é uma intro de 39 segundos, que já abre o disco a mil, preparando o terreno para "Polidicks", que mantém a pegada alucinada, energética e batida do gênero. A postura veloz se estende às demais canções do conjunto, já que se trata de uma fortíssima e obrigatória característica do estilo, intensamente presente em bandas como Municipal WasteNuclear AssaultSuicidal Tendencies, entre outras. Assim como o Chaos Synopsis no encerramento do registro, o Terrordome também executa um cover: "The 'Hood", da extinta banda estadunidense Evildead.


Infelizmente, mais tarde, no mesmo ano de 2016, outra baixa se deu no line-up do Chaos Synopsis - e essa foi especialmente importante, já que se trata da saída de JP, guitarrista de longa data que teve importante participação composicional nos discos até então. Em seu lugar, entrou Diego Santos, e assim a banda segue, até os dias de hoje, como um quarteto, silenciosamente preparando novidades para o futuro.

Ainda antes de conhecer a banda, o Chaos Synopsis já me chamava a atenção por questões materiais, devido ao capricho que eles têm com seus lançamentos. Além das belas capas, os discos "Art of Killing" e "Seasons of Red" vêm dentro de slipcases, algo que me enchia os olhos. Com trabalhos físicos bonitos e músicas que imploram por acompanhamento das letras, a experiência de manusear os encartes enquanto a música rola é maximizada com muita qualidade. Vale a pena adquirir os trabalhos. Basta contatar a banda através de seus meios oficiais, que estão linkados logo abaixo.

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CONTATO, SHOWS & IMPRENSA:
E-mail: chaossynopsis@gmail.com.br
shows@islandpress.com.br

Assessoria de Imprensa: Dunna Records


 Postwar Madness (EP) (2008)

01 - Postwar Madness
02 - LXXXVI
03 - Zombie Ritual (Death Cover)

 Kvlt ov Dementia (2009)

01 - Postwar Madness
03 - Only Evil Can Prevail
04 - LXXXVI
05 - License To Kill
06 - Expired Faith
07 - Blinding Chains
08 - Spiritual Cancer
09 - 2100 A.D.
10 - March of The Unholy

 Live Dementia (Live) (2011)

01 - Behind The Masks
02 - Postwar Madness
03 - 2100 A.D.
04 - March of The Unholy
05 - Spiritual Cancer
06 - Only Evil Can Prevail
07 - Expired Faith

 Art of Killing (2013)

02 - Vampire of Hanover
04 - Bay Harbor Butcher
05 - Demon Midwife
06 - Red Spider
07 - Zodiac
08 - B.T.K. (Bind, Torture, Kill)
09 - Monster of The Andes
10 - Art of Killing

 Seasons of Red (2015)

01 - Burn Like Hell
04 - Red Terror
05 - Brave New Gold
06 - Incident 228
07 - State of Blood
08 - Like A Thousand Suns
09 - Four Corners of The World

 Intoxicunts (Split) (2016)

01 - Terrordome: Reflux
02 - Terrordome: Polidicks
03 - Terrordome: Nothing Else Fuckers
04 - Terrordome: The 'Hood (Evildead Cover)
05 - Terrordome: Beerbong Party
06 - Chaos Synopsis: Serpent of The Nile
07 - Chaos Synopsis: Fire On Babylon
08 - Chaos Synopsis: Damage Inc. (Metallica Cover)

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domingo, 4 de dezembro de 2016

Maestrick - Discografia Comentada

O que entendemos como Arte? Certamente, esse conceito está presente corriqueiramente em nossas vidas em sociedade, de tal maneira que ele é totalmente naturalizado e absorvido - porém, isso não quer dizer que é exatamente compreendido. O conceito de Arte é bastante amplo, tornando impossível defini-lo de apenas uma maneira. Entretanto, podemos entendê-lo, grosso modo, como tudo aquilo que resulta da tentativa do ser humano de expressar empiricamente o que lhe afeta os sentidos (como suas emoções, percepções, ideias...), seja através de abordagens linguísticas, plásticas ou sonoras. Ainda assim, o conceito não deixa de ter um forte tom subjetivo, já que está diretamente ligado à sensação do maravilhamento, algo bem individual. Portanto, o que é considerado arte para um, pode não sê-lo para outro.

Apesar de haver a possibilidade de definir Arte de algumas maneiras, o conceito é abstrato e absorvido por uma sociedade de maneira cultural, levando a determinadas manifestações humanas serem consideradas quase invariavelmente artísticas (desde que mexam com as emoções, causem maravilhamento), como a pintura, as artes cênicas, a dança e, certamente e o que nos interessa aqui, a música.

Direto de São José do Rio Preto, interior de São Paulo, uma banda faz uso de uma das diversas manifestações artísticas - a música - e leva o conceito ao limite, numa abordagem "artisticamente interdisciplinar" que os próprios integrantes chamam de "aquarela musical" e conquistou expressivos elogios não apenas no Brasil, mas no mundo afora: o formidável Maestrick.

Demorei muito para finalmente ouvir os trabalhos dos paulistas, e a oportunidade de me encontrar com as obras veio graças à Som do Darma, que os assessora. Não sei o que pensar sobre: me arrependo por ser um trabalho tão espetacular que eu poderia ter ouvido há anos, ou me conforto na ideia de que esse foi um bom momento para ouvi-lo, pois se fosse num momento anterior, eu poderia não ter compreendido musicalidade tão complexa e madura? No fundo, talvez seja uma reflexão que não importa.

O Maestrick foi fundado em 2006 e executa basicamente Progressive Rock, mas o rótulo em si é vazio diante da complexa viagem artística que o atualmente trio permite ao ouvinte embarcar. Não apenas sua musicalidade exala as influências dos nomes mais clássicos do estilo, mas também é uma brilhante aproximação a diferentes segmentos artísticos, como o cinema, a dança, a pintura, a literatura e as artes cênicas, tudo com aura surrealista e banhado ainda a muita brasilidade.

Levou quatro anos para o Maestrick finalmente lançar seu primeiro registro, que veio na forma do EP "H.U.C.", de duas faixas, lançado em 2010. Era apenas uma demonstração parcial e introdutória de como viria a ser o álbum de estreia, que seria lançado um ano mais tarde. Introdutória mesmo; afinal, "H.U.C." e "Aquarela" são justamente as faixas de abertura do debut.

Portanto, em 2011, através da Die Hard Records e sob formação contando com Fábio Caldeira (vocal, piano e teclados), Danilo Augusto (guitarra), Maurício Figueiredo (guitarra), Renato Montanha (baixo, baixo fretless e guturais) e Heitor Matos (bateria e percussão), sai o trabalho de estreia "Unpuzzle!", causando grande rebuliço entre público e mídia especializada.

E não é pra menos - trata-se de uma conceitual jogada de mestre! Extremamente bem produzido, "Unpuzzle!" é um museu musical de artes antiga e moderna fundidos com altas doses de inteligência e ambição. Aqui, a banda resgata a essência do Progressive Rock setentista, trazendo-o para a modernidade em destilação com Progressive Metal, Heavy Metal, música nordestina e música brasileira cinquentista, tudo em invejável nível de coerência.

Cada canção tem sua personalidade e mensagem instrumental próprias, sem que isso signifique, em contrapartida, que elas fiquem deslocadas e provoquem a sensação de não pertencerem a um mesmo contexto conceitual. São diferenciadas, baseadas em diferentes influências, mas a aura Maestrick se mantém pulsante, ganhando vida graças à linda voz de Fábio Caldeira, cujo timbre é alto e cristalino, e sua postura é absolutamente teatral, como se espera de tamanha manifestação artística e progressiva.

Variadas influências são sentidas ao longo do trabalho: vide "H.U.C.", onde a postura alia Progressive Metal ao estilo Dream Theater e Progressive Rock numa forte conotação Yes, e ainda traz um momento sublime de quebradeiras progressivas nas cordas enquanto a percussão, na base, é brasileiríssima - e ainda vem, na sequência, vocais guturais, performados pelo baixista Renato Montanha. Ou então, note como "Aquarela" - que apesar do nome, é cantada em inglês - se assenta numa pegada Prog Rock mais sentimental, cujos momentos de maior intensidade se manifestam através de corais gospel de sensação inconfundivelmente Queen - algo também sentido vibrantemente mais adiante, em "Radio Active".

Climatização mais brasileira passa a ser mais apropriadamente explorada a partir de "Pescador", belíssima canção cantada em português, cuja base instrumental é ditada por instrumentos como viola caipira, bongo, chocalho, flauta e triângulo, exalando influências nordestinas extremamente bem aproveitadas. E já que Arte é o conceito lei aqui, não poderia faltar uma pegada circense, que chega a lembrar músicos como Gogol Bordello. A rápida "Sir Kus" - ótimo título! - absorve parte da atmosfera regional apresentada em "Pescador", e prepara terreno para "Puzzler", que vem na sequência, já com ritmização circense no talo.

Outros destaques singulares recaem sobre "Disturbia", mais densa e agressiva, apelando pro Progressive/Heavy Metal moderno; "Treasures of The World", uma linda balada brasileira composta em ritmo de mantra; e, sem dúvidas, "Yellown of The Ebrium", talvez uma das faixas mais únicas do registro, especialmente pela pesada carga MPB impressa na composição, com violão tocando ao velho e clássico estilo Bossa e passagem em português.

Seria estranho se "Unpuzzle!", sendo um disco progressivo, não tivesse uma longuíssima faixa. Ele é encerrado com a intensa e ótima "Lake of Emotions", de 21 minutos, que apresenta diferentes sensações e tonalidades de corais - inclusive o lírico.

Aqui e ali, participações especiais deixam suas contribuições, sendo a mais notável as vozes femininas em "Aquarela" e "Yellown of The Ebrium", executadas nesta última por Yana Roberta.

Embora seja possível destrinchar as canções e notar suas particularidades, trocas culturais entre elas são frequentes, e sensações de Pink Floyd, Beatles, Jethro Tull, Rush e até Angra pipocam no decorrer da obra, além de toda a já mencionada brasilidade e as fortes referências a segmentos artísticos como artes cênicas, pintura, literatura, dança, entre outros, enriquecendo um trabalho genial.

"Unpuzzle!", ainda por cima, é um álbum conceitual, contando uma história situada em um museu onde acontece uma exposição artística "entre várias dimensões, e os personagens que vivem dentro dos quadros são ajudados por dois seres nascidos das tintas do artista criador das obras". As letras são muito bem compostas - além de bastante complexas, por serem muito abstratas. O disco foi gravado no AR-15 Studios, em Bebedouro/SP, e mixado e masterizado por Gustavo Carmo (que deixou várias contribuições instrumentais e composicionais) no mesmo estúdio, e no AK-47 Studio, em Seattle, nos Estados Unidos.

Excêntrico e esplêndido, o debut colheu pesadas críticas positivas que colocaram "Unpuzzle!" entre os melhores álbuns de 2011 e o Maestrick entre as melhores bandas, segundo veículos como Jornal Estadão, Whiplash, Roadie Crew e Rock Brigade, ao longo de 2011 e 2012. A banda acabou chamando a atenção lá fora, fazendo com que o trabalho fosse lançado mundialmente pela Power Prog Records em 2013. Além disso, participações em diversos festivais importantes entraram pro rol de memórias e conquistas do grupo, como no Roça 'n' Roll em Varginha (MG), e no ProgFest II em Lima, no Peru.

Em 2016, a banda começou a gravar o sucessor de "Unpuzzle!", que se chamará "Espresso Della Vita: Solare", e será lançado, provavelmente, em 2017. No entanto, enquanto material novo não é apresentado e já como um trio após as saídas dos guitarristas Danilo Augusto e Maurício Figueiredo, o conjunto aproveitou o ano para lançar o EP "The Trick Side of Some Songs", uma grande homenagem às suas maiores e mais clássicas influências.

Lançado novamente pela Die Hard Records, esse registro de 39 minutos de duração (contando a faixa bônus) busca ter o mesmo peso de um álbum completo, já que lança as bases de uma transição entre "Unpuzzle!" e o vindouro "Espresso Della Vita: Solare". A intenção, aqui, além da homenagem, é de criar um centro de inspiração para a própria banda, e ainda deixar registrado tudo aquilo que já vinham tocando ao vivo com frequência desde os primeiros tempos da banda.

Embora se trate de um trabalho "cover", ele não se limita a meramente reproduzir as canções originais, não - trata-se de uma verdadeira repaginada, com direito a novos arranjos, acréscimos do próprio estilo Maestrick, além de muitos medleys e referências ao álbum subsequente.

Calibrados, os caras já iniciam o EP com a introdução "Near-Brain Damage", adaptação de "Almost A Brain Damage", dos gigantes do Pink Floyd. Inclusive, mais adiante, a adaptação também interessantemente encerra o EP, concedendo à principal banda de Progressive Rock o devido destaque por abrir e encerrar um importante trabalho de puro tradicionalismo progressivo.

Após o "Pink Maestrick Floyd" abrir mostrando qual será a pegada e proposta do trabalho, vem um excelente medley do Yes, sensatamente intitulado "Yes, It's A Medley!". Trata-se de uma junção das canções "Soon", "Close To The Edge", "Roundabout", "Changes" e "Give Love Each Day" onde as versões originais parecem distantes, mas de um modo positivo. São nove minutos de uma ode à uma das principais influências do conjunto, algo já claramente notado anteriormente em "Unpuzzle!".

Na sequência de canções bastante alteradas, vem a dobradinha "The Ogre Fellers Master March Part I: The Battle" e "The Ogre Fellers Master March Part II: The Fairy and The Black Queen", cujas durações são mais curtas e a inspiração orbita outra grande influência sentida na musicalidade do conjunto: o Queen e as canções "The Fairy Fellers Master Stroke" e "The March of The Black Queen".

Após os grandiosos tributos e ainda antes do encerramento com Pink Floyd, posicionam-se covers de "Aqualung", do Jethro Tull, e "While My Guitar Gently Weeps", dos Beatles, que flertam mais com as versões originais e concedem um clima mais ameno ao andamento do trabalho.

Por fim, ainda vem uma passional faixa bônus. Com participação da Orquestra Belas Artes, "Rainbow Eyes", originalmente gravada pelo Rainbow, homenageia os cinco anos desde o falecimento de uma das maiores lendas do Heavy Metal mundial: o eterno Ronnie James Dio!

Apesar dos paulistas terem buscado se livrar das cruas amarras das ideias originais e enriquecer clássicos absolutos com seu próprio estilo - o que eventualmente ocorreu -, "The Trick Side of Some Songs" não comporta a mesma atmosfera intensa de "Unpuzzle!", e ouvi-lo esperando aquela mesma pegada seria um erro. As expectativas devem se posicionar no meio-termo entre o debut e as próprias bandas-referência do conjunto para que essa ótima obra não provoque qualquer tipo de quebra de expectativas. O EP pode ser baixado gratuitamente através do site oficial do Maestrick. Clique aqui.

Bom gosto e profissionalismo definem o Maestrick. Não se trata de aventureiros fazendo música apenas pelo esporte, mas verdadeiros músicos, cultos, com atitude, composição e gerência profissionais - e é muito bom ver uma banda brasileira nesse calibre e seriedade. Se você, assim como eu, levou uma eternidade para finalmente ouvir essa musicalidade genial, não perca mais tempo - adquira os trabalhos!

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SHOWS & IMPRENSA:
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Assessoria de Imprensa: Som do Darma
E-mail: contato@somdodarma.com.br


 H.U.C. (EP) (2010)

01 - H.U.C.
02 - Aquarela

 Unpuzzle! (2011)

01 - H.U.C.
02 - Aquarela
03 - Pescador
04 - Sir Kus
05 - Puzzler
06 - Disturbia
07 - Treasures of The World
08 - Radio Active
09 - Smilesnif
10 - Yellown of The Ebrium
11 - Lake of Emotions

 The Trick Side of Some Songs (EP) (2016)

01 - Near-Brain Damage
04 - The Ogre Fellers Master March Part II: The Fairy and The Black Queen
05 - Aqualung
07 - Near-Brain Damage (Reprise)
08 - Rainbow Eyes (Bonus Track)

Baixar (site oficial)