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domingo, 31 de julho de 2016

Hanoi Rocks - Discografia Comentada

O Hanoi Rocks foi formado em Helsinki, Finlândia em 1979. Fortemente influenciados por nomes como New York Dolls, The Stooges e The Rolling Stones, desde o início os músicos buscavam uma sonoridade própria, unindo elementos de suas referências com Blues, Punk Rock, Rock 'N' Roll, Hard Rock e Glam Rock, sendo considerado o precursor do Glam Metal.
A primeira formação incluía o vocalista e saxofonista Michael Monroe (nome artístico de Matti Fagerholm), os guitarristas Nasty Suicide (Jan Stenfors) e Stefan Piesnack, o baixista Nedo além do baterista Peki Sirola. No ano seguinte, Piesnack, Nedo e Sirola foram substituídos por Andy McCoy (Antti Hulkko), Sam Yaffa (Sami Takamäki) e Gyp Casino (Jesper Sporre), respectivamente.
Na época em que foi criado, o cenário da música pesada na Finlândia era muito menor do que atualmente, o que fez com o Hanoi Rocks se mudasse para Estocolmo, Suécia, em 1981 e para Londres, Inglaterra, em 1982.
Quando a banda mudou-se para Estocolmo, os seus membros viviam principalmente nas ruas, pedindo dinheiro, exceto Andy McCoy, que vivia com sua namorada rica.
Ainda durante o período em que estavam em Estocolmo, lançaram seu primeiro disco: Bangkok Shocks, Saigon Shakes, Hanoi Rocks, que contava com a faixa Tragedy, escrita por McCoy quando ele tinha quinze ou dezesseis anos de idade e que se tornaria uma das mais importantes da história da banda. O álbum foi bem recebido pela crítica e atingiu o quinto lugar nas paradas finlandesas.
Em 1982, antes de se mudarem para Londres, veio o segundo álbum: Oriental Beat. A banda ficou decepcionada com o resultado do disco e culpou o produtor por isso. Ainda assim, hoje o álbum é considerado um clássico pelos fãs e chegou a figurar em uma lista dos 100 melhores álbuns de Rock de todos os tempos da posição 91, desbancando trabalhos como Lick It Up do Kiss e Morrison Hotel do The Doors.
No período em que estavam em Londres, Monroe conheceu um fã chamado Razzle (Nicholas Dingley) num show de Johnny Thunders. Isso fez crescer uma amizade entre os dois e Razzle participou de alguns shows, apareceu no backstage, e pediu para ser o baterista da banda. McCoy e Monroe despediram Gyp Casino para seu uso de drogas, depressão e pensamentos suicidas, e Razzle foi contratado como o novo baterista.
Quando Razzle se juntou com o conjunto, o terceiro álbum já estava gravado, ainda assim ele é creditado em Self Destruction Blues, lançado também em 1982. Contado com o hit Love's An Injection, que atingiu o primeiro lugar nas paradas finlandesas, o disco teve boas vendas o que levou o Hanoi Rocks a assinar um contrato para promover seus trabalhos no mercado japonês.
No início de 1983, embarcaram para uma bem sucedida turnê pela Ásia, sendo que os shows no Japão foram todos um grande sucesso, apesar dos elevados preços dos ingressos.
Quando retornaram da turnê, gravaram o quarto disco e partiram para uma nova turnê, dessa vez em Israel, local em que não foram bem recebidos em razão do choque cultural entre um país conservador e músicos que tocavam um som estranho e se vestiam de forma ainda mais esquisita.
Após o fiasco nas apresentações, retornaram para o Reino Unido para o lançamento do novo disco:  Back To Mystery City, que teve bons resultados nas paradas britânicas e finlandesas.
Para tentar alcançar o estrelato, o conjunto contou com o aclamado produtor Bob Erzin para auxiliá-los no próximo disco.
Antes do lançamento do trabalho, fizeram mais uma grande turnê pelo Japão, país em que já eram tratados como estrelas, tamanha a idolatria dos fãs. Até mesmo na Finlândia, causava surpresa o quanto eram queridos na Terra do Sol Nascente.
Quando retornaram, veio o quinto disco: Two Steps From The Move, o qual teve boas vendas, as quais se devem ao sucesso do Single Don't You Ever Leave Me / Oil And Gasoline. Ainda em 1984, a banda fez uma boa turnê pelos Estados Unidos, a qual somente não foi totalmente bem sucedida em razão de algumas datas terem sido canceladas em razão de Michael Monroe ter fraturado o tornozelo.
No dia 08 de dezembro  de 1984, Razzle morreu em um acidente automobilístico, dentro de um carro dirigido por Vince Neil, vocalista do Mötley Crüe. Vince foi acusado pela Justiça, sentenciado a um mês de prisão (cumprindo apenas quinze dias) em segurança mínima, além de ter de pagar uma quantia de 2,6 milhões de dólares à família de Razzle. O baterista foi então substituído por Terry Chimes, baterista do álbum de estreia do The Clash. Sammy Yaffa deixou a banda e foi substituído por René Berg, do Idle Flowers. A banda nunca se recuperou do choque, e então Monroe também deixa o grupo: em Maio de 1985, a banda faz seu último show, no Rockerina Festival, na Polônia. O show é gravado e lançado como um álbum ao vivo ainda em 1985.
Com o término das atividades da banda, os músicos partiram para outros projetos, mas sem alcançarem o mesmo sucesso.
Em 2001, Monroe e McCoy retomaram a banda, juntos a dois membros do Electric Boys, Costello Hautamäki (guitarrista) e Timpa (baixista), além do baterista Lacu, que já havia trabalhado com Monroe no projeto solo do mesmo.
Com a reunião, saíram em diversas turnês até que, em 2002, McCoy e Monroe chegaram à conclusão de que já tinham material suficiente para um novo disco, o que resultado no álbum: Twelve Shots On The Rocks. Embora o álbum foi um sucesso na Finlândia e no Japão, Monroe e McCoy não estavam presentes quando o álbum foi mixado, e quando ouviram o produto acabado que não estavam felizes. O álbum foi remixado em 2003, com duas novas canções, Moonlite Dance e Bad News.
Após diversas apresentações entre 2003 e 2004, Costello Hautamäki deixou a banda, sendo substituído por Stevie Klasson, que acabou sendo demitido ainda em 2004. Logo em seguida, Timpa deixou o conjunto, por razões familiares.
A banda teve problemas para encontrar sucessores para os músicos ausentes, tanto que, para o próximo álbum, Monroe acabou tocando inúmeras partes de baixo e guitarra. Após muita procura, a banda recrutou o guitarrista Conny Bloom e o baixista Andy "A.C." Christell, e em 2005 lançou o álbum Another Hostile Takeover. O álbum trouxe algumas faixas mais experimentais e recebeu muitas críticas positivas, embora boa parte dos fãs tenha se decepcionado com o trabalho em razão de ter fugido do Hard Rock característico do conjunto.
Em 2007, vem o álbum Street Poetry, que muito consideram como o primeiro (e único) álbum do Hanoi Rocks após seu retorno, que foi fiel à sua sonoridade dos anos 80. Faixas como Fashion e This One's For Rock'n'Roll, trouxeram maior visibilidade para o conjunto.
No início de 2008, Lacu deixou o conjunto para se juntar ao Popeda. A banda fez algumas apresentações utilizando uma bateria eletrônica, até anunciar o sueco George Atlagic. Apesar do ingresso do novo membro, Monroe e McCoy decidiram encerrar as atividades da banda. Para isso, fizeram oito apresentações em abril de 2009, no Tavastia Club, em Helsinki. Todos os shows tiveram seus ingressos esgotados e Nasty Suicide apareceu como convidado especial em três dos últimos shows, e Lacu também apareceu no show final.
Apesar de nunca ter alcançado fama mundial, o Hanoi Rocks se tornou o marco inicial para o Metal na Finlândia, pois abriu as portas para vários nomes que surgiram anos mais tarde, tais como NightwishSonata ArcticaChildren Of BodomHIM, entre muitos outros.
Além disso, o Hanoi Rocks sempre foi considerado como uma grande referência musical para nomes como  Guns N' RosesMötley CrüeSebastian Bach e Manic Street Preachers. Recentemente, artistas como Fenriz, do DarkthroneJoey Jordison, do Slipknot Dave Grohl citaram o Hanoi Rocks como uma importante influência musical em suas carreiras.


 Bangkok Shocks, Saigon Shakes, Hanoi Rocks - 1981

01 - Tragedy
02 - Village Girl
03 - Stop Cryin
04 - Don't Never Leave Me
05 - Lost In The City
06 - First Timer
07 - Cheyenne
08 - 11th Street Kids
09 - Walking With My Angel
10 - Pretender

Ouvir (Spotify)

 Oriental Beat - 1982

01 - Motorvatin
02 - Don't Follow Me
03 - Visitor
04 - Teenangels Outsiders
05 - Sweet Home Suburbia
06 - M.C. Baby
07 - No Law Or Order
08 - Oriental Beat
09 - Devil Woman
10 - Lightning Bar Blues
11 - Fallen Star


 Self Destruction Blues - 1982

01 - Love's An Injection
02 - I Want You
03 - Café Avenue
04 - Nothing New
05 - Kill City Kills
06 - Self Destruction Blues
07 - Beer And A Cigarette
08 - Whispers In The Dark
09 - Taxi Driver
10 - Desperados
11 - Problem Child
12 - Dead By X-Mas


 Back To Mystery City - 1983

01 - Strange Boys Play Weird Openings
02 - Malibu Beach Nightmare
03 - Mental Beat
04 - Tooting Bec Wreck
05 - Until I Get You
06 - Sailing Down The Tears
07 - Lick Summer Love
08 - Beating Gets Faster
09 - Ice Cream Summer
10 - Back To Mystery City


 Two Steps From The Move - 1984

01 - Up Around The Bend
02 - High School
03 - I Can't Get It
04 - Underwater World
05 - Don't You Ever Leave Me
06 - Million Miles Away
07 - Boulevard Of Broken Dreams
08 - Boiler (Me Boiler 'n' Me)
09 - Futurama
10 - Cutting Corners

Ouvir (Spotify)


 All Those Waisted Years (Live) - 1984

01 - Pipeline
02 - Oriental Beat
03 - Back To Mystery City
04 - Motorvatin
05 - Until I Get You
06 - Mental Beat
07 - Don't Never Leave Me
08- Tragedy
09 - Malibu Beach Nightmare
10 - Visitor
11 - 11th Street Kids
12 - Taxi Driver
13 - Lost In The City
14 - Lightnin' Bar Blues
15 - Beer And A Cigarette
16 - Under My Wheels
17 - I Feel Alrigh
18 - Train Kept A-Rollin


 Rock & Roll Divorce (Live) - 1985

01 - Two Steps From The Move
02 - Back To Mystery City
03 - Boulevard Of Broken Dreams
04 - Don't You Ever Leave Me
05 - Tragedy
06 - Malibu Beach
07 - Million Miles Away
08 - Taxi Driver
09 - Up Around The Bend
10 - I Feel Alright
11 - Rock & Roll
12 - Looking At You


 The Best Of Hanoi Rocks (Compilation) - 1985

01 - Two Steps From The Move
02 - Don't You Ever Leave Me
03 - Malibu Beach Nightmare
04 - Lost In The City
05 - Motorvatin
06 - Underwater World
07 - 11th Street Kids (Live)
08 - Oriental Beat
09 - Until I Get You
10 - Back To Mystery City
11 - Million Miles Away
12 - Taxi Driver
13 - Tragedy (Live)

 Dead By Christmas (Compilation) - 1986

01 - Oriental Beat (Live)
02 - Back to Mystery City (Live)
03 - Love's An Injection
04 - Lightning Bar Blues
05 - Mental Beat
06 - Malibu Beach (Calypso)
07 - M.C. Baby
08 - Village Girl
09 - Taxi Driver
10 - Tragedy
11 - Visitor (Live)
12 - Ice Cream Summer
13 - Whishper In The Dark
14 - Cheyenne
15 - No Law And Order
16 - Fallen Star
17 - Dead By Christmas
18 - Lost In The City
19 - Don't Never Leave Me (Live)
20 - Under My Wheels (Live)
21 - I Feel Alright (Live)

 The Collection (Compilation) - 1989

01 - Malibu Beach Nightmare
02 - Mental Beat
03 - Until I Get You
04 - Ice Cream Summer
05 - Back To Mystery City
06 - Oriental Beat
07 - Motorvatin'
08 - Tragedy
09 - Taxi-Driver
10 - Lightning Bar Blues
11 - Two Steps From The Move
12 - Up Around The Bend
13 - I Can´t Get It
14 - Don´t You Ever Leave Me
15 - Million Miles Away
16 - Boulevard Of Broken Dreams

 Decadent, Dangerous, Delicious (Compilation) - 2000

CD 01

01 - Kill City Kills (Alternate Version)
02 - Tragedy
03 - Pretender
04 - Back To Mystery City
05 - Tooting Bec Wreck
06 - Taxi Driver
07 - Love's An Injection
08 - Lost In The City
09 - Motorvatin'
10 - Teenangels Outsiders
11 - No Law or Order
12 - Oriental Beat
13 - Malibu Beach Nightmare (Rock Version)
14 - Village Girl
15 - Fallen Star
16 - Dead By X'Mas

CD 02

01 - Beer And Cigarette
02 - Problem Child
03 - It's Too Late
04 - I Feel Alright (Live)
05 - Mental Beat
06 - Self Distruction Blues
07 - Until I Get You
08 - Lightnin' Bar Blues
09 - Don't Follow Me
10 - 11th Street Kidzz
11 - M.C. Baby
12 - I Want You (Alternate Version)
13 - Rebel On The Run
14 - Malibu Beach (Calypso Version)
15 - Two Steps From The Move

 Twelve Shots On The Rocks - 2002

01 - Intro
02 - Obscured
03 - Bad News
04 - New York City
05 - Delirious
06 - A Day Late, A Dollar Short
07 - In My Darkest Moment
08 - People Like Me
09 - Whatcha Want
10 - Moonlite Dance
11 - Gypsy Boots
12 - Lucky
13 - Watch This
14 - Designs On You
15 - L.A.C.U.
16 - Are You Lonesome Tonight
17 - Winged Bull

Ouvir (Spotify)

 Up Around The Bend...The Definitive Collection (Compilation) - 2004

CD 01

01 - Tragedy
02 - Village Girl
03 - Stop Cryin
04 - Lost In The City
05 - Cheyenne
06 - 11th Street Kidzz
07 - Motorvatin
08 - Don't Follow Me
09 - Teenagels Outsiders
10 - Sweet Home Surbuia
11 - Mc Baby
12 - Oriental Beat
13 - Loves An Injection
14 - I Want You
15 - Cafe Avenue
16 - Nothing New
17 - Self Destruction Blues
18 - Beer And A Cigarette
19 - Taxi Driver
20 - Problem Child

CD 02

01 - Malibu Beach Nightmare
02 - Mental Beat
03 - Until I Get You
04 - Tooting Beg Wreck
05  - Beating Gets Faster
06 - Ice Cream Summer
07  - Back To Mystery City
08 - Up And Around The Bend
09 - High School
10 - Dont You Ever Leave Me
11 - Underwater World
12 - Boulevard Of Broken Dreams
13 - Million Miles Away (Aka Never Get Enough)
14 - Lightin Bar Blues (Live)
15 - Visitor (Live)
16 - Under My Wheels (Live)
17 - I Feel Alright (Live)
18 - The Train Kept a Rollin (Live)

Ouvir (Spotify)

 Another Hostile Takeover - 2005

01 - Intro
02 - Back In Yer Face
03 - Insert I
04 - Hurt
05 - The Devil In You
06 - Love
07 - Talk To The Hand
08 - Eternal Optimist
09 - Insert II
10 - No Compromise, No Regrets
11 - Reggae Rocker
12 - You Make The Earth Move
13 - Insert III
14 - Better High
15 - Dear Miss Lonely Hearts
16 - Insert IV
17 - Center Of My Universe

Ouvir (Spotify)

 Street Poetry - 2007

01 - Hypermobile
02 - Street Poetry
03 - Fashion
04 - Highwired
05 - Power Of Persuasion
06 - Teenage Revolution
07 - Worth Your Weight In Gold
08 - Transcendental Groove
09 - This One's For Rock'n'Roll
10 - Powertrip
11 - Walkin' Away
12 - Tootin' Star
13 - Fumblefoot And Busy Bee
14 - Trouble Boys

 This One's For Rock'N'Roll... The Best Of Hanoi Rocks 1980-2008 - 2008

CD 01 (1980–1985)

01 - Lost In The City
02 - Tragedy
03 - 11th Street Kids
04 - Oriental Beat
05 - No Law Or Order
06 - Motorvatin
07 - Taxi Driver
08 - Café Avenue
09 - Love's An Injection
10 - Back To Mystery City
11 - Until I Get You
12 - Malibu Beach Nightmare
13 - Up Around The Bend
14 - Don't You Ever Leave Me
15 - High School
16 - Underwater World
17 - Boulevard Of Broken Dreams
18 - Million Miles Away

CD 02 - (2001–2008)

01 - People Like Me
02 - A Day Late, A Dollar Short
03 - Obscured
04 - In My Darkest Moment
05 - Back In Yer Face
06 - Better High
07 - You Make The Earth Move
08 - Eternal Optimist
09 - Center Of My Universe
10 - Hypermobile
11 - Fashion
12 - This One's For Rock'n'Roll
13 - Teenage Revolution
14 - Worldshaker
15 - Grin And Bear It


domingo, 17 de julho de 2016

Primator - Discografia Comentada

Hoje o Metal é um estilo musical inquestionavelmente diversificado, mas nem sempre foi assim. No princípio, lá por volta dos anos 70 e início dos 80, não haviam tantos subgêneros quanto há hoje, o que é normal para algo ainda em seus primeiros anos de desenvolvimento. O Metal ainda estava se desgarrando do Rock, principalmente por meio de bandas como Black Sabbath e Judas Priest. Ao longo das décadas posteriores, diversos subgêneros surgiram a partir de determinadas características de bandas que vieram antes, resultando em uma quantidade invejável de rótulos, sendo Thrash Metal, Power Metal, Death Metal e Black Metal alguns dos mais apreciados. A variedade é, sem sombras de dúvidas, incrível e positiva, mas já reparou que, de certa forma, é difícil encontrarmos bandas atuais fazendo som tradicional, som de raiz? Digo, não que não existam, mas é muito mais fácil encontrar bandas de Thrash e Death Metal do que de Heavy Metal tradicional. Em São Paulo capital existe uma ótima banda que não se esqueceu do legado deixado pelos "pais fundadores" e procura tocar Heavy Metal com pureza e qualidade, resguardando o que o estilo ancião tem de melhor.
Formado em 2009, o Primator entrega tradicionalidade em tempos de modernidade e complexidade. Seus feitos já eram conhecidos na cidade mesmo antes do álbum de estreia ser lançado, já que tocavam nos principais bares de Rock da cidade. Atualmente composta por Rodrigo Sinopoli (vocal), Márcio Dassié (guitarra), Diego Lima (guitarra), André dos Anjos (baixo) e Lucas Assunção (bateria), a banda levou um tempo para lançar o primeiro disco principalmente porque as canções passaram por repetidas sessões de refinamento até atingirem um estágio em que o quinteto as considerasse satisfatórias para serem imortalizadas em um registro.
Por isso foi somente em 2015 que o debut "Involution" saiu, lançado de forma independente e distribuído pela Som do Darma. Gravado no Estúdio GR, em São Paulo, e produzido por Daniel de Sá, esse é um trabalho que o tempo inteiro, ao longo de seus 48 minutos, soa familiar. Também não é pra menos: ele poderia ser facilmente inserido no contexto da antiga Nova Onda do Heavy Metal Britânico, já que tem musicalidade a caráter. As influências não deixam mentir, são cristalinas: uma verdadeira jorrada de Iron Maiden com muita manifestação de Judas Priest, especialmente nos vocais.
São os vocais mesmo que chamam bastante atenção, pra mais e pra menos. É claríssima a influência de Bruce Dickinson (Iron Maiden) sobre a voz de Rodrigo Sinopoli, que oscila bastante a tonalidade. Quando em tons médios, aplica agressivos drives num estilo bem Dickinson, principalmente nos vibratos e nos prolongamentos de vogais; e quando eleva a tonalidade, insere agudos realmente agudos, remetendo a Rob Halford (Judas Priest) e algumas vezes até mesmo Andre Matos (ex-Angra e Shaman). São influências de respeito que agregam muito, mas poderiam ser melhor aproveitadas. A capacidade de Sinopoli de executar sem grandes esforços tais técnicas é louvável, mas ao longo do trabalho transmite a sensação de certo exibicionismo, por vezes atrapalhando as canções por elevadas de tom e agudos que entram fora de contexto, parecendo deslocados. Da forma como as linhas vocais foram compostas (com maior incidência de tons médios "driveados"), os agudos deveriam ficar naturalmente como a "cereja do bolo", precisando aparecer em momentos pontuais, de clímax, como ponto máximo da performance vocal de uma canção. Porém, eles aparecem com frequência, estragando a surpresa. Apesar do incômodo, não se trata de algo catastrófico - a audição continua sendo uma experiência positiva.
Instrumentalmente, a banda é também muito bem trabalhada. As fortes influências de Maiden e Priest se equilibram uma na outra, gerando uma oscilação de arranjos de base por vezes pesados e bangeadores como os do Priest, e por vezes melódicos e harmônicos como os do Maiden. É tudo bem arquitetado, deixando clara a preocupação dos músicos com o afastamento da linearidade.
A musicalidade seca remete o tempo todo a suas influências, menos nos momentos de solo de guitarra, que são absolutamente fantásticos. Impecáveis, são executados com técnica, habilidade e, muitas vezes, velocidade. Os reverbs da produção o afasta da secura da timbragem da base e lhe confere uma profundidade quase sentimental, dando ainda mais beleza às notas, tão bem executadas. Nesses momentos é que vemos um Primator mais Primator.
"Involution" não é um disco ambicioso, mas é ótimo. Personalidade também não é um dos quesitos mais fortes, mas há sinceridade e coerência com a proposta de não inovar, mas soar como uma volta no tempo, porém, com a excelência de uma produção moderna de qualidade - detalhe que Daniel de Sá conseguiu entregar. Como os próprios paulistanos desejaram, não é um registro para ficar à frente ou atrás dos ídolos, e sim lado a lado.
O Primator tem potencial. Ainda precisa esmerilhar detalhes, podar exageros, deixar a musicalidade ainda mais coerente sem perder a essência da proposta... mas se em discos futuros o quinteto gerenciar bem a maturidade, podem, quem sabe?, lançar um grande disco de Heavy Metal tradicional que dê a nós, que escrevemos, a chance de defini-lo como um grande álbum lançado na época errada.

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 Involution (2015)

01 - Primator
02 - Dead Land
03 - Flames of Hades
04 - Caroline
05 - Black Tormentor
06 - Let Me Live Again
07 - Face The Death
08 - Erase The Rainbow
09 - Praying For Nothing
10 - Involution

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terça-feira, 12 de julho de 2016

Higher - Discografia Comentada

De uma perspectiva musical geral, o Metal é um estilo de música pesado. Mas da perspectiva daqueles que são adeptos do estilo, nem todas as bandas e gêneros soam exatamente pesados como soariam pra alguém de fora do estilo.
Muitas vezes quando buscamos peso, distorções realmente distorcidas e produção refinada que valorize isso, temos que recorrer ao Metal Extremo para obtê-los. Bandas que cantam limpo tendem, em geral, a não carregar tanto peso assim no instrumental. No entanto, como tudo na vida, sempre há as exceções, e uma delas faz Metal realmente potente e pesado com vocais limpos diretamente de Campinas, no interior de São Paulo: o Higher.
Rotular o som da banda é uma tarefa complicada - e essa não é uma ideia induzida pelo release oficial. Trata-se de uma constatação honesta por parte deles. O conjunto pratica uma lúcida e técnica mistura entre Groove Metal, Heavy Metal e altas projeções de Progressive Metal, sem contar as nuances melódicas, mas cujo resultado final é tão uníssono que não cabe nos rótulos.
Musicalidade de tamanha qualidade tinha mesmo que, obrigatoriamente, vir de músicos de qualidade. O engraçado é que os fundadores Cézar Girardi (vocal) e Gustavo Scaranelo (guitarra) têm muita bagagem na música, mas em outros ramos, como o Jazz e a música instrumental - daí a sustentação do argumento sobre serem experientes e técnicos. Fizeram carreira nessas áreas. Contudo, sempre gostaram também de Metal, até que decidiram, por volta de 2014, fundar uma banda do gênero após uma conversa telefônica. Foi assim que nasceu o Higher.
A ideia era aproveitar antigas composições dos tempos da banda Second Heaven (que ambos criaram em 1995 mas não lançou discos), revisá-las com base na experiência adquirida ao longo das quase duas décadas até então e dá-las uma nova cara, mais moderna, além de compôr novas canções.
Para dar vida às músicas e completar o line-up, a dupla convocou dois músicos confiáveis: no baixo, o chileno Andrés Zuñiga (ex-professor do EM&T e colunista da revista Bass Player); e para a bateria, Pedro Rezende (ex-aluno de Virgil Donati, do Planet X, na Austrália).
Como resultado, saiu em 2014, de forma independente, o primeiro álbum do Higher, batizado com o nome da própria banda. Distribuído pela Som do Darma, ele reúne nove sólidas e pesadas faixas que totalizam fluidos 40 minutos. O resultado é absolutamente positivo.
Não são músicas difíceis de se assimilar, mas ao mesmo tempo é notável o empenho e complexidade no trabalho de composição delas. A arquitetura composicional é muito bem trabalhada, fugindo do básico simplesmente o tempo todo. Por isso percebe-se que as músicas se fundamentam em bases personalizadas, pensadas, tornando evidente que os compositores (os dois fundadores) planejaram todos os detalhes.
As canções são realmente pesadas. Elas apresentam riffs carregados de groove que dão aquela prazerosa sensação de peso e esmagamento, ao mesmo tempo em que o lado técnico aflora com a injeção progressiva aplicada. Logo, aparecem arranjos escalados, ricos em quebras de ritmos, pausas e que logo se convertem em um andamento mais pegado. A característica de alternância que tanto exploram ao longo do disco também se estende ao lado melódico, já que com muita naturalidade o peso também é substituído pela doce harmonia melódica de modo que chega até a lembrar o Carcass à época de "Heartwork". Não podemos nos esquecer dos solos de guitarra, que a exemplo das bases, também preservam características múltiplas, sobretudo a união de feeling e técnica. São simplesmente fantásticos e verdadeiros cartões postais da habilidade de Gustavo.
Quando um instrumental é muito bom, tem-se algum receio de que o vocalista não seja capaz de acompanhar o nível e possa prejudicar. Felizmente esse não é o caso de Cézar Girardi. Com excelente extensão vocal, o intérprete canta com a agressividade que as canções exigem, em raivosos drives que se encaixam com maestria na proposta. Além disso, também se rende ao exemplo da melodia instrumental, então entrega momentos de vocal mais limpo, sobretudo nos refrões, muitas vezes mais cadenciados em relação aos demais momentos das músicas. Agudos também são explorados, só que com pouca frequência - o que, de certa forma, valoriza os excelentes momentos que eles entram (vide o fim de "Illusion" - fantástico!).
É evidente que Cézar não canta com voz plena. Seu vocal é tão técnico quanto a banda se propõe a ser. Por isso chega a dar um positivo susto de impressionamento quando canta grave na semibalada "Break The Wall", revelando a qualidade das áreas mais baixas de sua extensão. Linda música, e fantástica performance do vocalista no decorrer do álbum.
O disco também apresenta diversas inserções de vocais de apoio, sempre trabalhados pela produção de modo que ficam distantes e profundos. Por vezes, soam até épicos, de modo que lembra bandas heroicas de Viking Metal, como mostram "Lie", "Illusion" e "Like The Wind". É um detalhe nem tão esperado que acrescentou muito à proposta.
Em se tratando de uma banda de músicos técnicos, de bagagem, especialmente na área do Jazz, espera-se um disco de certa forma apelativo, do tipo "de músico para músico". A não-correspondência dessa expectativa certamente é uma das coisas mais positivas do trabalho, pois aproxima a banda do ouvinte que só quer ouvir boa música e o permite apreciar e gostar das canções sem problema nenhum, mesmo que, apesar de ter sentimento, por vezes soa um tanto mecânico. Ócios da técnica. Ainda assim, grandioso trabalho mestrado Cézar Girardi e Gustavo Scaranelo! Excelente álbum.
Provavelmente o ouvinte que conhece Noturnall sentirá certa familiaridade ao ouvir o Higher. Isso não se deve apenas ao fato da proposta ser parecida, mas também porque Thiago Bianchi assina a produção, que aconteceu no Fusão Studios. Logo, reciclou as mesmas ideias que já vinha aplicando em sua banda, que estava lançando o primeiro álbum. Ela realça o lado mecânico da banda, o que pode ser um fator negativo pra quem gosta de sentimento, ainda assim valorizou com grande eficácia as timbragens dos instrumentos e deu ótimas ideias de como adornar as linhas vocais.
Após o lançamento, mudanças na formação. A primeira dela foi o acréscimo de um segundo guitarrista. Felipe Martins tinha apenas 16 anos, mesmo assim ganhou o voto de confiança da banda, principalmente porque era acompanhado de perto por seu professor, o próprio Gustavo Scaranelo. Pouco depois, em 2015, o chileno Andrés Zuñiga deixou a banda, e seu posto foi ocupado por Will Costa.
Há tantas bandas de qualidade pipocando nos dias de hoje que fica difícil dar atenção a todas. Muitas passam despercebidas. Se gosta de peso e técnica sem precisar recorrer a repartições mais extremas do Metal, certamente o Higher satisfará. Banda de bom gosto.

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 Higher (2014)

01 - Lie
02 - Illusion
05 - Like The Wind
07 - Time To Change
08 - Make It Worth
09 - The Sign

Ouvir (Spotify)

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Seu Juvenal - Discografia Comentada

"O que está acontecendo aqui?" Frases equivalentes a essa provavelmente passam pela cabeça de todos aqueles que ouvem Seu Juvenal pela primeira vez - e em todas as outras vezes também. Quando estamos acostumados a ouvir música e analisá-las (mesmo sem perceber, no caso dos resenhistas "não-oficiais"), sempre buscamos algum ponto de apoio, alguma referência que sirva de norte para a bússola da compreensão. Afinal, todos estamos acostumados com determinados padrões estruturais e ideais. Mas o que fazer quando uma banda rompe todas as referências e faz Rock do jeito "errado"? É o desafio que o quarteto do Seu Juvenal lança para todo ouvinte disposto a esmiuçar as camadas de sua musicalidade irreverente, anti-padronizada, anti-refinada, politicamente incorreta, entre outros 'antis' e 'ins'.
Essa aventura musical não se restringe apenas àquele que ouve, mas se estende àqueles que a elaboram também. De musicalidade imprevisível, o conjunto mineiro atualmente composto por Bruno Bastos (vocal), Edson Zacca (guitarra e violão), Alexandre Tito (baixo) e Renato Zaca (bateria) recolhe diversos elementos de muitos estilos musicais, destila no Rock (sobretudo o Punk, em especial nos primeiros discos) e simplesmente sai do comum - isso em toda a discografia. Não é uma tarefa fácil, mas ela é feita desde 1997, quando a banda foi fundada em Uberaba sob o nome de Os Donátilas Rosários. Na época, havia certa dificuldade de "integração", ocasionada tanto pelo nome esquisito quanto pelo estilo esquisito. A carência de convites para shows levou a banda a logo mudar de nome, mas sem deixar toda sua essência excêntrica de lado. Foi quando passaram a ser conhecidos como Seu Juvenal, e os lançamentos começaram a tomar forma.
O primeiro deles foi a demo "Cyberjecas No Sertão da Farinha Podre", que foi gravada em São Paulo e produzida por Rainer Tanked Pappon (Centra Scrutinizer Band), e saiu já em 1998. O cartão de visitas demonstrativo trouxe evidência à banda, que passou a - aí sim - fazer mais shows e tocar em festivais, além de participar em coletâneas.
Passando o tempo, novas composições surgiam, até que o primeiro álbum de estúdio foi lançado em 2004, intitulado "Guitarra de Pau Seco". O desafio já começa mesmo cedo. Talvez se ele não tivesse determinados elementos-surpresa, seria só mais um disco de Punk Rock no mercado. Mas não é o que temos aqui: despreparado, você se depara com determinadas inserções que o deixam pasmo e o faz se perguntar o que aquele som está fazendo ali - mas incrivelmente, não é uma indagação negativa, e sim positivamente impressionada.
Pois é, o trabalho é basicamente calcado no Punk Rock, mas essa é só uma massa que leva um recheio variado, numa organizada e lúcida gororoba de bom gosto que beira a psicodelia. Logo de início há surpresa com a aparição de trompetes na sonoridade da cadenciada e tropical "Guerrilha Cultural", faixa de abertura do disco, que inclusive conta com batuques tribais. Os trompetes aparecem em outras faixas mais adiante, como na sacana "Filhos de Seu Juvenal" (que tem um clima bem mexicano) e na reflexiva "Teclas Dentadas". As surpresas não ficam apenas por isso, mas também em detalhes que poderiam até passar batidos, sem indagação, como logo na segunda faixa, "Aquela Canção", quando o vocalista insere um grito rasgado e sofrido totalmente inesperado para o ameno andamento da canção. É inesperada também a sensação de que ficou legal!
Quase todo Punk tem sua bela dose de ironia, algo que o faça rir, seja lírica ou instrumentalmente. Pode ter certeza que ficará boquiaberto se perguntando "que porra é essa?" quando "Toninho da Viola" iniciar com seu energético e empolgado Modão do sertão nordestino, que logo se converte em riffs de guitarra e na pegada do Punk tradicional, até que se encerra da mesma forma como começou. Bem sacado demais, cara! Certamente a faixa mais deslocada é "Carta Ao Manipulado", onde um crítico Rap é executado com direito até a flautas na base instrumental.
Embora as atipicidades sejam muitas nesse excelente e divertido disco, o bom e velho Punk não fica de fora. Ele aparece com força em faixas como "Olhos Cortados", "U.S.A." (onde o estilo ganha sua forma mais tradicionalíssima, com críticas ao sistema e adornos em coros de backing vocals), "A Resposta" (intercalada com "U.S.A", ela traz 33 segundos de pura agressividade Punk) e "Indigestão".
O álbum é encerrado com duas faixas que mantêm o ouvinte consternado: "Clitóris Canibais", de nove minutos de duração - muito incomum pro Punk - e letra doentia e pervertida, e por fim "Uberaba Tribal Mix", que traz batuques à lá Les Tambours du Bronx e encerra num clima atmosférico e brisante, fazendo contraponto com a musicalidade mais pegada que transcorreu ao longo do disco.
"Guitarra de Pau Seco" foi um fantástico debut, e isso é fácil de ser reconhecido quando se compreende a proposta de rompimento da banda.
Apenas quatro anos mais tarde chegou o segundo álbum. "Caixa Preta" foi lançado em 2008 e, ao contrário de seu antecessor - que tinha 43 minutos totais de duração -, ele tem duração total reduzida (27 minutos), característica talvez provocada pela inspiração ainda mais submergida no Punk Rock. A produção não é das melhores - isso levando em conta que a do debut também não era excepcional -, mas não denigre tanto a audição de um disco que não se mostra tão atrevido criativamente quanto "Guitarra de Pau Seco".
Nesse álbum, não vemos uma aventura por elementos extras ou grandes surpresas que o deixam caduco. É um trabalho mais seco, pesado, centrado e melhor trabalhado dentro do que o próprio Rock tem a oferecer, porém, isso não faz do álbum ruim, apenas menos imprevisível.
Aqui os caras se afundam de vez no Punk Rock e também se esbanjam em influências roqueiras mais diversas, muitas vezes ultrapassando a fronteira e desbravando o território do Metal, inclusive. Vide faixas como "Atro", que flerta com o Heavy Metal ou "O Criador e A Criatura", cujos riffs sabáticos e escaramuçadores aludem ao Stoner Metal. No entanto, também vê-se elementos de Hardcore e psicodelia como em "Passarins". Talvez a coisa mais linda e surpreendente desse disco seja o Rockabilly executado na sugestiva "Nóiabilly", que é instrumental, e o estilo segue perfeitamente destilado em meio ao Punk Rock na faixa seguinte, "Carne Viva".
Entre os diversos compassos e andamentos adotados na execução do Punk, o mais pegado e tradicional certamente é o exposto em "Via Láctea", bem como, de certa forma, na canção "Coroné Belzebu", que fecha o disco com uma torrente de referências instrumentais ao Rage Against The Machine.
Se o vocal de Bruno Bastos era limpo, comportado e assentado na zona de conforto, saindo dela com raras exceções no debut, o mesmo não acontece aqui. As músicas se tornaram mais agressivas e pesadas, e a voz seguiu a tendência. Frequentemente o intérprete aposta em vocais rasgados em drive, além de demonstrar muito mais entrega no ofício.
Nos tempos que se seguiram, a banda se sentia desconfortável e queria melhorar ainda mais. Foi quando se mudaram para Ouro Preto (MG), e começaram, com muita calma, a trabalhar no terceiro álbum de estúdio.
Demorou bastante, mas ele chegou e com muito estilo. Lançado exclusivamente em LP pela Sapólio Rádio e distribuído pela Som do Darma, "Rock Errado" saiu em 2014 resgatando a essência criativa da banda. É um disco inspirado, ainda mais insano e, como o nome sugere, bastante "errado", indo na contramão de qualquer tendência e fugindo de padrões, inclusive internos do Rock.
Gravado em incríveis quatro dias no Lab.áudio, em Passagem de Mariana (MG) e produzido por Ronaldo Gino (guitarrista do Virna Lisi), o álbum é maduro, perspicaz e brilhantemente sutil em sua arquitetura e referências.
"Rock Errado" é carregado por uma notável atmosfera setentista, cheia de psicodelia - um retrô que soa também moderno devido à bela produção. É um disco difícil, já que suas referências não são escancaradas, mas misturadas em meio à própria personalidade da banda e se manifestam em lampejos mistos. A base continua Punk Rock, mas com menos incidência em relação aos álbuns anteriores, o que abre espaço para que outros estilos também ganhem destaque, como o Indie, o Grunge, algo de Hard Rock e até mesmo o Stoner Metal, mas tudo sem soar pesado demais, mantendo constância e coerência.
Algumas músicas expõem com mais evidência as referências setentistas, tais como "Homem Analógico", "Free Ordinária" e a faixa-título (que inclusive conta com a participação do vocalista Manu "Joker", do Uganga), cujas influências são declaradamente de bandas como New York Dolls e Free. Porém, a coisa se atualiza também com as referências ao Rock e Metal em faixas como "Asfalto", "Um Dia de Fúria" (que também tem algo de Grunge) e "Louva-A-Deus", um fantástico Stoner Metal instrumental. Fora, também, o obrigatório Punk Rock, presente em faixas como "Antropofagia Disfarçada" e na própria faixa-título, que a tem também.
A banda tem mania de encerrar muito bem seus álbuns, em especial nas duas últimas faixas. Essa característica é preservada aqui: a penúltima, "A Chuva Não Cai", é climática e levada a brisantes pianos num andamento bem balado, algo raramente praticado pelos caras. O álbum é então encerrado com "Burca", que até a metade de seus seis minutos puxa os pianos da antecessora até que se transforma em uma frenética porradaria com destaque para a bateria, que é destruidora, e o contra-baixo, que tem linda performance ao longo de todo o álbum.
Trata-se de um disco complexo, mas também fácil de ouvir e gostar. É maduro em todos os aspectos, inclusive nos vocais de Bruno, que estão absolutamente à vontade, seguros. O "Rock Errado" é correto e ousado.
O nome de uma banda é também seu cartão postal; há de se tomar cuidado com isso. Embora ter um nome insano faça todo sentido para uma banda desse calibre, ele ainda pode provocar desconfiança, especialmente pra quem só ouve Metal. Mas não tenha receio; é diferente, mas coerente, algo muitas vezes em falta na música atual. Rock atípico para ouvidos atípicos.

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 Guitarra de Pau Seco (2004)

01 - Guerrilha Cultural
02 - Aquela Canção
03 - Olhos Cortados
04 - Toninho da Viola
05 - Filhos de Seu Juvenal
06 - Carta Ao Manipulado
07 - U.S.A.
08 - A Resposta
09 - Teclas Dentadas
10 - Indigestão
11 - Clitóris Canibais
12 - Uberaba Tribal Mix

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 Caixa Preta (2008)

01 - Passarins
02 - Filhos da Putrefação
03 - Atro
04 - O Criador e A Criatura
05 - A Espera
06 - Nóiabilly
07 - Carne Viva
08 - Via Láctea
09 - Coroné Belzebu

Ouvir (YouTube)

 Rock Errado (2014)

01 - Homem Analógico
02 - Free Ordinária
03 - Antropofagia Disfarçada
04 - Asfalto
05 - Louva-A-Deus
06 - Um Dia de Fúria
07 - Rock Errado
08 - Moleque Dissonante
09 - A Chuva Não Cai
10 - Burca

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Ouvir (Deezer)