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sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Chaos Synopsis - Discografia Comentada

Quanto mais o tempo passa, mais bandas surgem, tornando o cenário cada vez mais (na maioria das vezes) saudavelmente concorrido. Porém, com o passar do tempo também vem a saturação de determinados segmentos do Rock e Metal que, sendo mais velhos e tendo maior número de bandas, acabam deixando de impressionar o público com a mesma facilidade de outrora, o que leva cada vez mais as bandas a inovarem - daí os novos estilos e mesclas. Muitas vezes, a escolha é simples e polarizada no que diz respeito às opções, mas ambas são igualmente difíceis de tomar: inovar ou arriscar fórmulas já amplamente exploradas?

Frequentemente, a escolha é tomada pelo coração, pelo conforto, pelo prazer - e isso não é uma crítica. Por isso, algumas vezes, para se destacar, se não houver intenções de inovar, de soprar ar fresco na cena, o que resta é fazer o já conhecido pelo público, mas com uma condição: que seja realmente foda para, aí sim, sobressair-se por uma qualidade ímpar. Estar falando isso nessa publicação, evidentemente, só pode significar uma coisa: o Chaos Synopsis é uma dessas.

Não há dúvidas: o Death Metal está saturado, e todos sabem muito bem o que esperar das bandas do estilo. Logo, é preciso ambição, interesses líricos que extrapolem as fronteiras do estilo, criatividade e, claro, competência para que discos atraentes sejam produzidos. Desde 2005, quando foi fundado em São José dos Campos (SP), o Chaos Synopsis vem refinando sua musicalidade e ganhando destaques cada vez mais merecidos através de trabalhos cada vez mais desenvoltos e musicalmente ricos.

Os primeiros anos foram mais devagar. O grupo, composto no início por Daniel Sanchez (vocal), Marloni Santos (guitarra), Jairo Vaz (baixo) e Friggi Mad Beats (bateria) lançou a princípio, em 2006, a demo "Garden of Forgotten Shadows", de cinco faixas, mas a formação estava demasiadamente instável. Por isso, alterações se sucederam, mas sempre com Jairo Vaz e Vitor (hoje conhecido pelo nome Friggi MadBeats) constantes na formação. À altura da primeira single, "2100 A.D.", de 2008, o line-up era um trio composto pelos mesmos indivíduos originais, com exceção do vocalista Daniel Sanchez, o que forçou o deslocamento de Jairo para a posição de vocalista, acumulando a função com a de baixista.

Entretanto, um ano mais tarde, com o advento do EP de três faixas "Postwar Madness" - que inclusive é encerrado com um cover de "Zombie Ritual", do Death -, a formação já havia se alterado novamente, passando a conter apenas Jairo no vocal e baixo e Friggi MadBeats na bateria e na gravação das guitarras.

Com a chegada de JP como guitarrista em 2009, o line-up teve relativa estabilidade como um trio, e assim emergiu o álbum debut do conjunto através da Free Mind Records, um brutal culto de demência: "Kvlt ov Dementia". Esse primeiro registro do Chaos Synopsis se calca integralmente no Death Metal, apresentando uma musicalidade em "circuito fechado", com bastante rigidez e atmosfera pesada. Jairo Vaz investe nos típicos guturais fechados do estilo com violência compatível àquela apresentada no instrumental, que, embora seco e direto, sem enfeites ou firulas, é bem encorpado e tem ótima produção, por mais que aquela sensação de não se tratar de uma gravação de inquestionável qualidade possa ser sentida. O disco é muito bom e simplesmente avassalador e frenético, servindo como cartão postal, logo no início da carreira, de uma banda fiel à execução clássica do gênero.

Entretanto, "Kvlt ov Dementia" não chega a ser esplêndido, e mesmo que seja muito bom, é previsível e ainda não destacava o Chaos Synopsis em meio à outras bandas de pegada similar. Ao longo dos 40 minutos de duração, vemos uma banda engessada, mais crua e sem grandes "ambições", digamos assim. Nem mesmo solos de guitarra aparecem para dar um "boost" na fúria, com exceção do fim da faixa "Spiritual Cancer" - apesar de que a pegada dele é mais melódica. Os paulistas viriam a se refinar melhor nos tempos que se sucederiam, e aí sim a banda desenvolveria uma identidade de fato para si.

De qualquer forma, "Kvlt ov Dementia" foi um registro importante como primeiro passo de uma banda promissora e marcação de presença na cena. Como não poderia deixar de ser, chamou a atenção de fãs e mídia, rendendo positivas críticas que culminaram em shows por todo o Brasil e também fora, com passagens pelo Paraguai e até mesmo, em 2010, uma pequena turnê na Polônia - que rendeu imprescindíveis benéfices aos caras, como amizades com bandas locais, além do contrato com a gravadora polonesa Wydawnictwo Muzyczne Psycho. A turnê deixou como um dos filhos o disco ao vivo "Live Dementia", que foi gravado no Carioca Club, em São Paulo, em janeiro de 2010 e foi lançado de forma independente em setembro, limitado em 33 cópias.

Após o debut, o guitarrista Marloni Santos voltou à banda, tornando-a novamente um quarteto e garantindo o encorpamento musical.

Os anos se passaram, e com eles também se foi aquela rigidez apresentada no debut. Os tempos que o sucederam fizeram muito bem aos paulistas, que amadureceram em simplesmente todos os aspectos. A maturidade foi muito bem usada em favor da banda, que trabalhou duro, com sensível empolgação, dedicação e criatividade.

Dizem que homens com um propósito são indomáveis, imparáveis. Foi mais ou menos isso que aconteceu com o Chaos Synopsis em seu segundo álbum de estúdio, lançado em 2013 pela já mencionada gravadora polonesa. O propósito era o seguinte: transformar arte e chacina em uma coisa só - portanto, nenhum título poderia ser melhor aplicado do que o "Art of Killing". Nesse trabalho, o quarteto toma como norte conceitual insanos assassinatos praticados por serial killers ao redor do mundo. Cada uma das 10 faixas é inspirada em um assassino em série diferente (tais como Febrônio Índio do Brasil, o Vampiro de Hannover, o Zodíaco, entre outros), com direito a uma breve nota no encarte, ao fim de cada canção, explicando os métodos aplicados por cada um, os porquês de seus apelidos, bem como seus reais nomes e estimativas dos números de vítimas.

A madura ideia lírica não ficou apenas no plano teórico, não; o resultado final demonstra que a banda engrandeceu também como letrista, entregando letras muito bem compostas, com trechos até mesmo poéticos, a maioria composta por Jairo e JP. Atrelado a esse desenvolvimento, também está a sensacional arte gráfica, de autoria de Rafael Tavares, que elaborou lindos layouts ao longo do encarte e uma capa que sintetiza toda a crueldade de um assassino em série.

Musicalmente falando, em "Art of Killing", o Chaos Synopsis deixa de praticar integralmente o Death Metal e passa a acoplar também o Thrash Metal como gênero anexo ao Death. O resultado é uma musicalidade menos engessada, mais desenvolta e aberta, que se permite introduzir riffs melhor trabalhados, mais complexos, ao mesmo tempo em que não perde, de modo algum, o peso e arrogância que os estilos oferecem - algo garantido pela impecável produção, que pesou pra caralho a potência das cordas.

A prova de que o Chaos Synopsis continuava violento vem logo na primeira faixa, "Son of Light", que inclusive ganhou um videoclipe e tem trechos em português. Trata-se de um exímio Death/Thrash Metal com maior pendência ao Thrash, onde uma sensível referência ao Slayer é facilmente percebida pelo característico andamento frenético e psicopata. A aliança entre os dois gêneros segue com ardente vivacidade ao longo dos 39 minutos totais do registro, hora com maior incidência Death, hora com maior incidência Thrash.

Tal direcionamento musical também levou a certa alteração na postura vocal de Jairo Vaz, que deixou de optar apenas pelos guturais fechados para incluir também os guturais mais rasgados, tão presentes na junção desses estilos. Sua performance, quase teatral, também é mais uma ode à chacina, já que as palavras são inassimiláveis enquanto canta com o desespero e sede de sangue de alguém prestes a interromper uma vida. Esse é mais um incentivo a ler as letras pelo encarte, que maximizam bastante a experiência.

Eu particularmente sou fã de solos de guitarra, por isso sempre sinto falta deles caso não apareçam, pois fica uma sensação de música incompleta. Se eles estavam praticamente ausentes em "Kvlt ov Dementia", o mesmo não pode ser dito em "Art of Killing", pois neste último eles são abundantes e executados com perspicácia por JP.

Certamente, "Art of Killing" é um trabalho empolgante que apresenta uma banda mais focada, organizando-se em torno de conceitos, objetivos, aliando a maturidade adquirida ao longo dos anos e convertendo-a em boa música e bastante segurança. Coroando essa arte obscura, o álbum ainda encerra com a faixa-título, que além de ser a de maior duração do disco (seis minutos), é instrumental e longe de ser monótona. Nela, violão e violino são introduzidos, enriquecendo uma música muito extremamente bem composta por JP, com variações rítmicas e bastante imersividade.

O segundo álbum rendeu mais uma turnê com diversos shows pelo Brasil e passagem pelo Paraguai em 2013. No ano seguinte, novamente a banda viajou ao outro lado do Atlântico para 16 shows da turnê "European Killing Season", que passou por sete países.

Após a turnê, começaram os preparativos para mais um álbum de estúdio. Porém, novamente, veio uma baixa na formação, com a saída do guitarrista Marloni Santos em 2014. Sua vaga foi preenchida por Luiz Ferrari em 2015, que participou das gravações de mais uma obra de massacre e dominação banhados a muito sangue.

É então que, no mesmo ano, é lançado através da Black Legion Productions mais um excelente álbum, intitulado "Seasons of Red". Herdeiro legítimo das focalizações musicais e líricas iniciadas em "Art of Killing", o terceiro full-length procura explorar o que já foi praticado nos dois álbuns anteriores e expandir a temática vermelha. Ou seja: trata-se de um álbum dignamente Death/Thrash Metal, como a banda já vinha sendo. Todavia, os dois gêneros estão em melhor uníssono, ao mesmo tempo em que a produção deixou a musicalidade mais densa e obscura, remetendo ao "Kvlt ov Dementia". Tal questão é extensiva aos guturais, que estão mais fechados do que foram no trabalho anterior. Em adição, os solos seguem matadores, mas a maioria apresenta uma tendência mais cultural, apostando em uma abordagem voltada à cadência e melodia regadas a generosas doses de referência egípcia.

Pois é; muito embora a capa do álbum - novamente criada por Rafael Tavares, sob conceito artístico de Jairo Vaz - retrate uma visão do imperador romano Nero com suas obscenidades e sede por morte, dando a impressão de que o registro versa integralmente sobre as obscuridades do Império Romano (sensação reforçada pelo layout dentro do encarte, que apresenta, ao longo das páginas, os membros da banda com seus rostos, nomes e funções em moedas de denário, sistema monetário corrente a partir dos últimos tempos da Roma republicana), não é exatamente do que se trata. Na verdade, apenas a faixa "Like A Thousand Suns" fala sobre massacre romano, e justamente o de Nero contra os cristãos. O conceito lírico traçado pela banda para "Seasons of Red" sai do âmbito individual, como o caso dos serial killers de "Art of Killing", e se expande ao âmbito das nações e impérios e seus tortuosos métodos de dominação e chacina sobre outros povos - muitas vezes os seus próprios - ao longo da história.

Logo, no decorrer dos 40 minutos desse excelente e pesado trabalho, temas como as torturas medievais dos tempos da Inquisição, a escravidão realizada pelos faraós no Egito Antigo, a opressão dos bolcheviques sobre os contra-revolucionários ao fim da Primeira Grande Guerra, entre outros são explorados música a música, sempre com o dote sangrento que se tornou marca distintiva do Chaos Synopsis.

Novamente, com o lançamento, mais uma viagem ao Velho Continente foi garantida, tocando 12 shows na "Euro Bleeding Red", além de vários outros no Brasil.

Em proximidade com seu antecessor, "Seasons of Red" estabelece a manutenção das ambições musicais do conjunto e uma excelente administração da maturidade acumulada, além de apresentar uma banda mais segura, embora talvez menos vivaz do que se demonstrou à época de "Art of Killing".

Todavia, isso viria a ser melhor aprimorado no disco seguinte, que seria lançado em parceria com a banda polonesa de Crossover/Thrash Terrordome, fruto de uma amizade iniciada nas viagens dos paulistas à Europa. O split, lançado no início de 2016 pela Defence Records, chama-se "Intoxicunts" e tem apenas 22 minutos de duração, deixando a forte sensação de que poderia ser mais longo. O Chaos Synopsis encerra o trabalho com as três faixas finais, onde duas são inéditas e uma é um brutal cover de "Damage Inc.", do Metallica. Nas duas novas, "Serpent of The Nile" e "Fire On Babylon", o quarteto de São José dos Campos demonstra como refinou aquelas inspirações egípcias iniciadas em "Seasons of Red" e as levou um patamar acima, tornando seu violento e malevolente Death/Thrash Metal firmemente coeso com tais referências, equilibrando os alicerces entre peso e arte.

Apesar do Chaos Synopsis ter menos quantidade de músicas incluídas, cada metade do tempo de duração pertence a uma banda. O negócio é que, como o Terrordome faz Crossover/Thrash, estilo batido caracterizado por músicas mais rápidas, isso acaba fazendo caber mais faixas. Os poloneses é tomam a dianteira nos dez primeiros minutos de pancadaria. "Reflux" é uma intro de 39 segundos, que já abre o disco a mil, preparando o terreno para "Polidicks", que mantém a pegada alucinada, energética e batida do gênero. A postura veloz se estende às demais canções do conjunto, já que se trata de uma fortíssima e obrigatória característica do estilo, intensamente presente em bandas como Municipal WasteNuclear AssaultSuicidal Tendencies, entre outras. Assim como o Chaos Synopsis no encerramento do registro, o Terrordome também executa um cover: "The 'Hood", da extinta banda estadunidense Evildead.


Infelizmente, mais tarde, no mesmo ano de 2016, outra baixa se deu no line-up do Chaos Synopsis - e essa foi especialmente importante, já que se trata da saída de JP, guitarrista de longa data que teve importante participação composicional nos discos até então. Em seu lugar, entrou Diego Santos, e assim a banda segue, até os dias de hoje, como um quarteto, silenciosamente preparando novidades para o futuro.

Ainda antes de conhecer a banda, o Chaos Synopsis já me chamava a atenção por questões materiais, devido ao capricho que eles têm com seus lançamentos. Além das belas capas, os discos "Art of Killing" e "Seasons of Red" vêm dentro de slipcases, algo que me enchia os olhos. Com trabalhos físicos bonitos e músicas que imploram por acompanhamento das letras, a experiência de manusear os encartes enquanto a música rola é maximizada com muita qualidade. Vale a pena adquirir os trabalhos. Basta contatar a banda através de seus meios oficiais, que estão linkados logo abaixo.

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CONTATO, SHOWS & IMPRENSA:
E-mail: chaossynopsis@gmail.com.br
shows@islandpress.com.br

Assessoria de Imprensa: Dunna Records


 Postwar Madness (EP) (2008)

01 - Postwar Madness
02 - LXXXVI
03 - Zombie Ritual (Death Cover)

 Kvlt ov Dementia (2009)

01 - Postwar Madness
03 - Only Evil Can Prevail
04 - LXXXVI
05 - License To Kill
06 - Expired Faith
07 - Blinding Chains
08 - Spiritual Cancer
09 - 2100 A.D.
10 - March of The Unholy

 Live Dementia (Live) (2011)

01 - Behind The Masks
02 - Postwar Madness
03 - 2100 A.D.
04 - March of The Unholy
05 - Spiritual Cancer
06 - Only Evil Can Prevail
07 - Expired Faith

 Art of Killing (2013)

02 - Vampire of Hanover
04 - Bay Harbor Butcher
05 - Demon Midwife
06 - Red Spider
07 - Zodiac
08 - B.T.K. (Bind, Torture, Kill)
09 - Monster of The Andes
10 - Art of Killing

 Seasons of Red (2015)

01 - Burn Like Hell
04 - Red Terror
05 - Brave New Gold
06 - Incident 228
07 - State of Blood
08 - Like A Thousand Suns
09 - Four Corners of The World

 Intoxicunts (Split) (2016)

01 - Terrordome: Reflux
02 - Terrordome: Polidicks
03 - Terrordome: Nothing Else Fuckers
04 - Terrordome: The 'Hood (Evildead Cover)
05 - Terrordome: Beerbong Party
06 - Chaos Synopsis: Serpent of The Nile
07 - Chaos Synopsis: Fire On Babylon
08 - Chaos Synopsis: Damage Inc. (Metallica Cover)

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