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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Broken Jazz Society - Discografia Comentada

Em uma época atida a nomenclaturas, onde se lê a manchete e não a matéria, títulos e rótulos podem dizer pouco ou nada sobre algo. É claro - tudo nos causa uma expectativa inicial. É involuntário. Então o que se espera de uma banda chamada Broken Jazz Society? Jazz, correto? Se pensou que sim, eis o primeiro equívoco.

Fundado em 2013 em Uberada, no Triângulo Mineiro, o trio Mateus Graffunder (vocal e guitarra), João Fernandes (baixo) e Felipe Araújo (bateria) se dedica a um estilo ainda bastante incomum em terras brasileiras, estando mais relacionado às marcantes regiões desérticas dos Estados Unidos, como Califórnia, Nevada, Texas: o Stoner Rock. Se você já formou uma consolidada expectativa do som dos caras, como se ele fosse puramente Stoner, aí está o segundo equívoco.

É daí que vem o título da banda - quebra de rígidos padrões sociais e profissionais, evitando pré-delinear seu caminho musical com balizas rotulares, correções digitais e quaisquer medidas que tornem a obra superficializada, uma mentira.

Mais saudosistas nos métodos de composição, gravação e planejamento gestual, os mineiros já trataram de gravar, à sua maneira, o primeiro álbum de estúdio, com apenas um ano de união. Dessa forma, surge em 2014, de forma independente e lo-fi, o disco de estreia "Tales From Purple Land".

Embora seja lo-fi, gravado com os poucos recursos que tinham à disposição (iPad com apogee jam e três microfones), o resultado ficou melhor, em termos de produção, do que o baixo financiamento leva a acreditar. A obra conta com oito faixas que totalizam rapidíssimos 23 minutos de duração que até estranham de primeira, por alguns fatores. Primeiro: o vocal de Mateus Graffunder é ligeiramente nasalado, e mais alto e agudo do que comumente se encontra no Stoner. Honestamente, não parece compatível num primeiro momento; mas a má impressão logo passa quando se acostuma ou compreende a proposta. Segundo: é Stoner? Certamente. Mas é mais alto astral do que a intuição diz.

Essa pegada mais animada do trio se dá necessariamente pela quebra de normas. "Tales From Purple Land" tem um 'quê' sessentista que dá um aspecto nostálgico à atmosfera, transportando o ouvinte a outro tempo e lugar. O Stoner Rock, além de determinados riffs sabáticos, recebe roupagens clássicas de Blues, Rock Psicodélico e as formas mais rudimentares de Hard Rock, o que torna o Broken Jazz Society uma banda ainda mais excêntrica tendo em vista sua origem.

Claro, a musicalidade tem distorções um tanto saturadas demais, baixo estrondoso e uma bateria correta - porém reta -, mas é engraçado como tudo isso, quando somado, deu certo. O disco é bom (melhora bastante se ouvido repetidamente) e os solos com distorção soam absolutamente clássicos e prazerosos.

Fechando o ciclo, vem dois anos mais tarde o segundo trabalho dos caras - mas não um álbum -: o EP de três faixas "Gas Station". De melhor produção, o disco tem canais mais dinâmicos, balanceados, e uma sonoridade mais encorpada, deixando essa história de lo-fi no passado. Das três canções, duas são inéditas e outra é regravação de "Riot Spring", que inclusive foi escolhida como single e recebeu um videoclipe muito bem produzido.

Em "Gas Station", o conjunto apresenta uma sonoridade mais pesada e segura, com esmagadores riffs sabáticos que são até dançantes, de certa forma. Recebendo influências de Grunge e Alternative Rock, a musicalidade se mantém, em certos momentos, em tempo mais rápido que o comum para o Stoner, mas sem desvirtuações drásticas. O equilíbrio entre base e estilos satélites é muito bom. Frequentemente, cadência e pegada têm suas alternâncias e desembocam em refrões intensos e até sentimentais.

Embora tenha coerência com o estilo dos caras, de um ponto de vista micro, "Gas Station" tem diferenças em relação a "Tales From Purple Land", e a combinação de fatores deu certo e tornou o segundo trabalho melhor do que o primeiro.

"Gas Station" foi gravado no 106Studio, em Uberaba mesmo, e a mixagem/masterização foram realizados por Gustavo Vazquez (Black Drawing Chalks, Uganga) no Estúdio RockLab, em Pirinópolis (GO).

O Broken Jazz Society ainda não está em sua melhor forma, mas com o mais recente EP, ganhou contornos realmente mais promissores. Infelizmente, não é - ainda - daquelas bandas que cativam de primeira, mas repetidas ouvidas atentas dão brilho a uma proposta pensada e bem executada. Portanto, para quem gosta de Stoner e gostaria de ver algo brasileiro no estilo, vale a dedicação aqui.

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CONTATO, SHOWS & IMPRENSA:
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Assessoria de Imprensa: Som do Darma
E-mail: contato@somdodarma.com.br


 Tales From Purple Land (2014)

01 - Addicted
02 - Ivansible
03 - Riot Spring
04 - Devil's Shoulder
05 - Swim In The Deep
06 - La Venganza
07 - Summer Superstition
08 - Don't Care At All

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 Gas Station (EP) (2016)

01 - Gas Station
03 - Mean Machine

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sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Chaos Synopsis - Discografia Comentada

Quanto mais o tempo passa, mais bandas surgem, tornando o cenário cada vez mais (na maioria das vezes) saudavelmente concorrido. Porém, com o passar do tempo também vem a saturação de determinados segmentos do Rock e Metal que, sendo mais velhos e tendo maior número de bandas, acabam deixando de impressionar o público com a mesma facilidade de outrora, o que leva cada vez mais as bandas a inovarem - daí os novos estilos e mesclas. Muitas vezes, a escolha é simples e polarizada no que diz respeito às opções, mas ambas são igualmente difíceis de tomar: inovar ou arriscar fórmulas já amplamente exploradas?

Frequentemente, a escolha é tomada pelo coração, pelo conforto, pelo prazer - e isso não é uma crítica. Por isso, algumas vezes, para se destacar, se não houver intenções de inovar, de soprar ar fresco na cena, o que resta é fazer o já conhecido pelo público, mas com uma condição: que seja realmente foda para, aí sim, sobressair-se por uma qualidade ímpar. Estar falando isso nessa publicação, evidentemente, só pode significar uma coisa: o Chaos Synopsis é uma dessas.

Não há dúvidas: o Death Metal está saturado, e todos sabem muito bem o que esperar das bandas do estilo. Logo, é preciso ambição, interesses líricos que extrapolem as fronteiras do estilo, criatividade e, claro, competência para que discos atraentes sejam produzidos. Desde 2005, quando foi fundado em São José dos Campos (SP), o Chaos Synopsis vem refinando sua musicalidade e ganhando destaques cada vez mais merecidos através de trabalhos cada vez mais desenvoltos e musicalmente ricos.

Os primeiros anos foram mais devagar. O grupo, composto no início por Daniel Sanchez (vocal), Marloni Santos (guitarra), Jairo Vaz (baixo) e Friggi Mad Beats (bateria) lançou a princípio, em 2006, a demo "Garden of Forgotten Shadows", de cinco faixas, mas a formação estava demasiadamente instável. Por isso, alterações se sucederam, mas sempre com Jairo Vaz e Vitor (hoje conhecido pelo nome Friggi MadBeats) constantes na formação. À altura da primeira single, "2100 A.D.", de 2008, o line-up era um trio composto pelos mesmos indivíduos originais, com exceção do vocalista Daniel Sanchez, o que forçou o deslocamento de Jairo para a posição de vocalista, acumulando a função com a de baixista.

Entretanto, um ano mais tarde, com o advento do EP de três faixas "Postwar Madness" - que inclusive é encerrado com um cover de "Zombie Ritual", do Death -, a formação já havia se alterado novamente, passando a conter apenas Jairo no vocal e baixo e Friggi MadBeats na bateria e na gravação das guitarras.

Com a chegada de JP como guitarrista em 2009, o line-up teve relativa estabilidade como um trio, e assim emergiu o álbum debut do conjunto através da Free Mind Records, um brutal culto de demência: "Kvlt ov Dementia". Esse primeiro registro do Chaos Synopsis se calca integralmente no Death Metal, apresentando uma musicalidade em "circuito fechado", com bastante rigidez e atmosfera pesada. Jairo Vaz investe nos típicos guturais fechados do estilo com violência compatível àquela apresentada no instrumental, que, embora seco e direto, sem enfeites ou firulas, é bem encorpado e tem ótima produção, por mais que aquela sensação de não se tratar de uma gravação de inquestionável qualidade possa ser sentida. O disco é muito bom e simplesmente avassalador e frenético, servindo como cartão postal, logo no início da carreira, de uma banda fiel à execução clássica do gênero.

Entretanto, "Kvlt ov Dementia" não chega a ser esplêndido, e mesmo que seja muito bom, é previsível e ainda não destacava o Chaos Synopsis em meio à outras bandas de pegada similar. Ao longo dos 40 minutos de duração, vemos uma banda engessada, mais crua e sem grandes "ambições", digamos assim. Nem mesmo solos de guitarra aparecem para dar um "boost" na fúria, com exceção do fim da faixa "Spiritual Cancer" - apesar de que a pegada dele é mais melódica. Os paulistas viriam a se refinar melhor nos tempos que se sucederiam, e aí sim a banda desenvolveria uma identidade de fato para si.

De qualquer forma, "Kvlt ov Dementia" foi um registro importante como primeiro passo de uma banda promissora e marcação de presença na cena. Como não poderia deixar de ser, chamou a atenção de fãs e mídia, rendendo positivas críticas que culminaram em shows por todo o Brasil e também fora, com passagens pelo Paraguai e até mesmo, em 2010, uma pequena turnê na Polônia - que rendeu imprescindíveis benéfices aos caras, como amizades com bandas locais, além do contrato com a gravadora polonesa Wydawnictwo Muzyczne Psycho. A turnê deixou como um dos filhos o disco ao vivo "Live Dementia", que foi gravado no Carioca Club, em São Paulo, em janeiro de 2010 e foi lançado de forma independente em setembro, limitado em 33 cópias.

Após o debut, o guitarrista Marloni Santos voltou à banda, tornando-a novamente um quarteto e garantindo o encorpamento musical.

Os anos se passaram, e com eles também se foi aquela rigidez apresentada no debut. Os tempos que o sucederam fizeram muito bem aos paulistas, que amadureceram em simplesmente todos os aspectos. A maturidade foi muito bem usada em favor da banda, que trabalhou duro, com sensível empolgação, dedicação e criatividade.

Dizem que homens com um propósito são indomáveis, imparáveis. Foi mais ou menos isso que aconteceu com o Chaos Synopsis em seu segundo álbum de estúdio, lançado em 2013 pela já mencionada gravadora polonesa. O propósito era o seguinte: transformar arte e chacina em uma coisa só - portanto, nenhum título poderia ser melhor aplicado do que o "Art of Killing". Nesse trabalho, o quarteto toma como norte conceitual insanos assassinatos praticados por serial killers ao redor do mundo. Cada uma das 10 faixas é inspirada em um assassino em série diferente (tais como Febrônio Índio do Brasil, o Vampiro de Hannover, o Zodíaco, entre outros), com direito a uma breve nota no encarte, ao fim de cada canção, explicando os métodos aplicados por cada um, os porquês de seus apelidos, bem como seus reais nomes e estimativas dos números de vítimas.

A madura ideia lírica não ficou apenas no plano teórico, não; o resultado final demonstra que a banda engrandeceu também como letrista, entregando letras muito bem compostas, com trechos até mesmo poéticos, a maioria composta por Jairo e JP. Atrelado a esse desenvolvimento, também está a sensacional arte gráfica, de autoria de Rafael Tavares, que elaborou lindos layouts ao longo do encarte e uma capa que sintetiza toda a crueldade de um assassino em série.

Musicalmente falando, em "Art of Killing", o Chaos Synopsis deixa de praticar integralmente o Death Metal e passa a acoplar também o Thrash Metal como gênero anexo ao Death. O resultado é uma musicalidade menos engessada, mais desenvolta e aberta, que se permite introduzir riffs melhor trabalhados, mais complexos, ao mesmo tempo em que não perde, de modo algum, o peso e arrogância que os estilos oferecem - algo garantido pela impecável produção, que pesou pra caralho a potência das cordas.

A prova de que o Chaos Synopsis continuava violento vem logo na primeira faixa, "Son of Light", que inclusive ganhou um videoclipe e tem trechos em português. Trata-se de um exímio Death/Thrash Metal com maior pendência ao Thrash, onde uma sensível referência ao Slayer é facilmente percebida pelo característico andamento frenético e psicopata. A aliança entre os dois gêneros segue com ardente vivacidade ao longo dos 39 minutos totais do registro, hora com maior incidência Death, hora com maior incidência Thrash.

Tal direcionamento musical também levou a certa alteração na postura vocal de Jairo Vaz, que deixou de optar apenas pelos guturais fechados para incluir também os guturais mais rasgados, tão presentes na junção desses estilos. Sua performance, quase teatral, também é mais uma ode à chacina, já que as palavras são inassimiláveis enquanto canta com o desespero e sede de sangue de alguém prestes a interromper uma vida. Esse é mais um incentivo a ler as letras pelo encarte, que maximizam bastante a experiência.

Eu particularmente sou fã de solos de guitarra, por isso sempre sinto falta deles caso não apareçam, pois fica uma sensação de música incompleta. Se eles estavam praticamente ausentes em "Kvlt ov Dementia", o mesmo não pode ser dito em "Art of Killing", pois neste último eles são abundantes e executados com perspicácia por JP.

Certamente, "Art of Killing" é um trabalho empolgante que apresenta uma banda mais focada, organizando-se em torno de conceitos, objetivos, aliando a maturidade adquirida ao longo dos anos e convertendo-a em boa música e bastante segurança. Coroando essa arte obscura, o álbum ainda encerra com a faixa-título, que além de ser a de maior duração do disco (seis minutos), é instrumental e longe de ser monótona. Nela, violão e violino são introduzidos, enriquecendo uma música muito extremamente bem composta por JP, com variações rítmicas e bastante imersividade.

O segundo álbum rendeu mais uma turnê com diversos shows pelo Brasil e passagem pelo Paraguai em 2013. No ano seguinte, novamente a banda viajou ao outro lado do Atlântico para 16 shows da turnê "European Killing Season", que passou por sete países.

Após a turnê, começaram os preparativos para mais um álbum de estúdio. Porém, novamente, veio uma baixa na formação, com a saída do guitarrista Marloni Santos em 2014. Sua vaga foi preenchida por Luiz Ferrari em 2015, que participou das gravações de mais uma obra de massacre e dominação banhados a muito sangue.

É então que, no mesmo ano, é lançado através da Black Legion Productions mais um excelente álbum, intitulado "Seasons of Red". Herdeiro legítimo das focalizações musicais e líricas iniciadas em "Art of Killing", o terceiro full-length procura explorar o que já foi praticado nos dois álbuns anteriores e expandir a temática vermelha. Ou seja: trata-se de um álbum dignamente Death/Thrash Metal, como a banda já vinha sendo. Todavia, os dois gêneros estão em melhor uníssono, ao mesmo tempo em que a produção deixou a musicalidade mais densa e obscura, remetendo ao "Kvlt ov Dementia". Tal questão é extensiva aos guturais, que estão mais fechados do que foram no trabalho anterior. Em adição, os solos seguem matadores, mas a maioria apresenta uma tendência mais cultural, apostando em uma abordagem voltada à cadência e melodia regadas a generosas doses de referência egípcia.

Pois é; muito embora a capa do álbum - novamente criada por Rafael Tavares, sob conceito artístico de Jairo Vaz - retrate uma visão do imperador romano Nero com suas obscenidades e sede por morte, dando a impressão de que o registro versa integralmente sobre as obscuridades do Império Romano (sensação reforçada pelo layout dentro do encarte, que apresenta, ao longo das páginas, os membros da banda com seus rostos, nomes e funções em moedas de denário, sistema monetário corrente a partir dos últimos tempos da Roma republicana), não é exatamente do que se trata. Na verdade, apenas a faixa "Like A Thousand Suns" fala sobre massacre romano, e justamente o de Nero contra os cristãos. O conceito lírico traçado pela banda para "Seasons of Red" sai do âmbito individual, como o caso dos serial killers de "Art of Killing", e se expande ao âmbito das nações e impérios e seus tortuosos métodos de dominação e chacina sobre outros povos - muitas vezes os seus próprios - ao longo da história.

Logo, no decorrer dos 40 minutos desse excelente e pesado trabalho, temas como as torturas medievais dos tempos da Inquisição, a escravidão realizada pelos faraós no Egito Antigo, a opressão dos bolcheviques sobre os contra-revolucionários ao fim da Primeira Grande Guerra, entre outros são explorados música a música, sempre com o dote sangrento que se tornou marca distintiva do Chaos Synopsis.

Novamente, com o lançamento, mais uma viagem ao Velho Continente foi garantida, tocando 12 shows na "Euro Bleeding Red", além de vários outros no Brasil.

Em proximidade com seu antecessor, "Seasons of Red" estabelece a manutenção das ambições musicais do conjunto e uma excelente administração da maturidade acumulada, além de apresentar uma banda mais segura, embora talvez menos vivaz do que se demonstrou à época de "Art of Killing".

Todavia, isso viria a ser melhor aprimorado no disco seguinte, que seria lançado em parceria com a banda polonesa de Crossover/Thrash Terrordome, fruto de uma amizade iniciada nas viagens dos paulistas à Europa. O split, lançado no início de 2016 pela Defence Records, chama-se "Intoxicunts" e tem apenas 22 minutos de duração, deixando a forte sensação de que poderia ser mais longo. O Chaos Synopsis encerra o trabalho com as três faixas finais, onde duas são inéditas e uma é um brutal cover de "Damage Inc.", do Metallica. Nas duas novas, "Serpent of The Nile" e "Fire On Babylon", o quarteto de São José dos Campos demonstra como refinou aquelas inspirações egípcias iniciadas em "Seasons of Red" e as levou um patamar acima, tornando seu violento e malevolente Death/Thrash Metal firmemente coeso com tais referências, equilibrando os alicerces entre peso e arte.

Apesar do Chaos Synopsis ter menos quantidade de músicas incluídas, cada metade do tempo de duração pertence a uma banda. O negócio é que, como o Terrordome faz Crossover/Thrash, estilo batido caracterizado por músicas mais rápidas, isso acaba fazendo caber mais faixas. Os poloneses é tomam a dianteira nos dez primeiros minutos de pancadaria. "Reflux" é uma intro de 39 segundos, que já abre o disco a mil, preparando o terreno para "Polidicks", que mantém a pegada alucinada, energética e batida do gênero. A postura veloz se estende às demais canções do conjunto, já que se trata de uma fortíssima e obrigatória característica do estilo, intensamente presente em bandas como Municipal WasteNuclear AssaultSuicidal Tendencies, entre outras. Assim como o Chaos Synopsis no encerramento do registro, o Terrordome também executa um cover: "The 'Hood", da extinta banda estadunidense Evildead.


Infelizmente, mais tarde, no mesmo ano de 2016, outra baixa se deu no line-up do Chaos Synopsis - e essa foi especialmente importante, já que se trata da saída de JP, guitarrista de longa data que teve importante participação composicional nos discos até então. Em seu lugar, entrou Diego Santos, e assim a banda segue, até os dias de hoje, como um quarteto, silenciosamente preparando novidades para o futuro.

Ainda antes de conhecer a banda, o Chaos Synopsis já me chamava a atenção por questões materiais, devido ao capricho que eles têm com seus lançamentos. Além das belas capas, os discos "Art of Killing" e "Seasons of Red" vêm dentro de slipcases, algo que me enchia os olhos. Com trabalhos físicos bonitos e músicas que imploram por acompanhamento das letras, a experiência de manusear os encartes enquanto a música rola é maximizada com muita qualidade. Vale a pena adquirir os trabalhos. Basta contatar a banda através de seus meios oficiais, que estão linkados logo abaixo.

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CONTATO, SHOWS & IMPRENSA:
E-mail: chaossynopsis@gmail.com.br
shows@islandpress.com.br

Assessoria de Imprensa: Dunna Records


 Postwar Madness (EP) (2008)

01 - Postwar Madness
02 - LXXXVI
03 - Zombie Ritual (Death Cover)

 Kvlt ov Dementia (2009)

01 - Postwar Madness
03 - Only Evil Can Prevail
04 - LXXXVI
05 - License To Kill
06 - Expired Faith
07 - Blinding Chains
08 - Spiritual Cancer
09 - 2100 A.D.
10 - March of The Unholy

 Live Dementia (Live) (2011)

01 - Behind The Masks
02 - Postwar Madness
03 - 2100 A.D.
04 - March of The Unholy
05 - Spiritual Cancer
06 - Only Evil Can Prevail
07 - Expired Faith

 Art of Killing (2013)

02 - Vampire of Hanover
04 - Bay Harbor Butcher
05 - Demon Midwife
06 - Red Spider
07 - Zodiac
08 - B.T.K. (Bind, Torture, Kill)
09 - Monster of The Andes
10 - Art of Killing

 Seasons of Red (2015)

01 - Burn Like Hell
04 - Red Terror
05 - Brave New Gold
06 - Incident 228
07 - State of Blood
08 - Like A Thousand Suns
09 - Four Corners of The World

 Intoxicunts (Split) (2016)

01 - Terrordome: Reflux
02 - Terrordome: Polidicks
03 - Terrordome: Nothing Else Fuckers
04 - Terrordome: The 'Hood (Evildead Cover)
05 - Terrordome: Beerbong Party
06 - Chaos Synopsis: Serpent of The Nile
07 - Chaos Synopsis: Fire On Babylon
08 - Chaos Synopsis: Damage Inc. (Metallica Cover)

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domingo, 4 de dezembro de 2016

Maestrick - Discografia Comentada

O que entendemos como Arte? Certamente, esse conceito está presente corriqueiramente em nossas vidas em sociedade, de tal maneira que ele é totalmente naturalizado e absorvido - porém, isso não quer dizer que é exatamente compreendido. O conceito de Arte é bastante amplo, tornando impossível defini-lo de apenas uma maneira. Entretanto, podemos entendê-lo, grosso modo, como tudo aquilo que resulta da tentativa do ser humano de expressar empiricamente o que lhe afeta os sentidos (como suas emoções, percepções, ideias...), seja através de abordagens linguísticas, plásticas ou sonoras. Ainda assim, o conceito não deixa de ter um forte tom subjetivo, já que está diretamente ligado à sensação do maravilhamento, algo bem individual. Portanto, o que é considerado arte para um, pode não sê-lo para outro.

Apesar de haver a possibilidade de definir Arte de algumas maneiras, o conceito é abstrato e absorvido por uma sociedade de maneira cultural, levando a determinadas manifestações humanas serem consideradas quase invariavelmente artísticas (desde que mexam com as emoções, causem maravilhamento), como a pintura, as artes cênicas, a dança e, certamente e o que nos interessa aqui, a música.

Direto de São José do Rio Preto, interior de São Paulo, uma banda faz uso de uma das diversas manifestações artísticas - a música - e leva o conceito ao limite, numa abordagem "artisticamente interdisciplinar" que os próprios integrantes chamam de "aquarela musical" e conquistou expressivos elogios não apenas no Brasil, mas no mundo afora: o formidável Maestrick.

Demorei muito para finalmente ouvir os trabalhos dos paulistas, e a oportunidade de me encontrar com as obras veio graças à Som do Darma, que os assessora. Não sei o que pensar sobre: me arrependo por ser um trabalho tão espetacular que eu poderia ter ouvido há anos, ou me conforto na ideia de que esse foi um bom momento para ouvi-lo, pois se fosse num momento anterior, eu poderia não ter compreendido musicalidade tão complexa e madura? No fundo, talvez seja uma reflexão que não importa.

O Maestrick foi fundado em 2006 e executa basicamente Progressive Rock, mas o rótulo em si é vazio diante da complexa viagem artística que o atualmente trio permite ao ouvinte embarcar. Não apenas sua musicalidade exala as influências dos nomes mais clássicos do estilo, mas também é uma brilhante aproximação a diferentes segmentos artísticos, como o cinema, a dança, a pintura, a literatura e as artes cênicas, tudo com aura surrealista e banhado ainda a muita brasilidade.

Levou quatro anos para o Maestrick finalmente lançar seu primeiro registro, que veio na forma do EP "H.U.C.", de duas faixas, lançado em 2010. Era apenas uma demonstração parcial e introdutória de como viria a ser o álbum de estreia, que seria lançado um ano mais tarde. Introdutória mesmo; afinal, "H.U.C." e "Aquarela" são justamente as faixas de abertura do debut.

Portanto, em 2011, através da Die Hard Records e sob formação contando com Fábio Caldeira (vocal, piano e teclados), Danilo Augusto (guitarra), Maurício Figueiredo (guitarra), Renato Montanha (baixo, baixo fretless e guturais) e Heitor Matos (bateria e percussão), sai o trabalho de estreia "Unpuzzle!", causando grande rebuliço entre público e mídia especializada.

E não é pra menos - trata-se de uma conceitual jogada de mestre! Extremamente bem produzido, "Unpuzzle!" é um museu musical de artes antiga e moderna fundidos com altas doses de inteligência e ambição. Aqui, a banda resgata a essência do Progressive Rock setentista, trazendo-o para a modernidade em destilação com Progressive Metal, Heavy Metal, música nordestina e música brasileira cinquentista, tudo em invejável nível de coerência.

Cada canção tem sua personalidade e mensagem instrumental próprias, sem que isso signifique, em contrapartida, que elas fiquem deslocadas e provoquem a sensação de não pertencerem a um mesmo contexto conceitual. São diferenciadas, baseadas em diferentes influências, mas a aura Maestrick se mantém pulsante, ganhando vida graças à linda voz de Fábio Caldeira, cujo timbre é alto e cristalino, e sua postura é absolutamente teatral, como se espera de tamanha manifestação artística e progressiva.

Variadas influências são sentidas ao longo do trabalho: vide "H.U.C.", onde a postura alia Progressive Metal ao estilo Dream Theater e Progressive Rock numa forte conotação Yes, e ainda traz um momento sublime de quebradeiras progressivas nas cordas enquanto a percussão, na base, é brasileiríssima - e ainda vem, na sequência, vocais guturais, performados pelo baixista Renato Montanha. Ou então, note como "Aquarela" - que apesar do nome, é cantada em inglês - se assenta numa pegada Prog Rock mais sentimental, cujos momentos de maior intensidade se manifestam através de corais gospel de sensação inconfundivelmente Queen - algo também sentido vibrantemente mais adiante, em "Radio Active".

Climatização mais brasileira passa a ser mais apropriadamente explorada a partir de "Pescador", belíssima canção cantada em português, cuja base instrumental é ditada por instrumentos como viola caipira, bongo, chocalho, flauta e triângulo, exalando influências nordestinas extremamente bem aproveitadas. E já que Arte é o conceito lei aqui, não poderia faltar uma pegada circense, que chega a lembrar músicos como Gogol Bordello. A rápida "Sir Kus" - ótimo título! - absorve parte da atmosfera regional apresentada em "Pescador", e prepara terreno para "Puzzler", que vem na sequência, já com ritmização circense no talo.

Outros destaques singulares recaem sobre "Disturbia", mais densa e agressiva, apelando pro Progressive/Heavy Metal moderno; "Treasures of The World", uma linda balada brasileira composta em ritmo de mantra; e, sem dúvidas, "Yellown of The Ebrium", talvez uma das faixas mais únicas do registro, especialmente pela pesada carga MPB impressa na composição, com violão tocando ao velho e clássico estilo Bossa e passagem em português.

Seria estranho se "Unpuzzle!", sendo um disco progressivo, não tivesse uma longuíssima faixa. Ele é encerrado com a intensa e ótima "Lake of Emotions", de 21 minutos, que apresenta diferentes sensações e tonalidades de corais - inclusive o lírico.

Aqui e ali, participações especiais deixam suas contribuições, sendo a mais notável as vozes femininas em "Aquarela" e "Yellown of The Ebrium", executadas nesta última por Yana Roberta.

Embora seja possível destrinchar as canções e notar suas particularidades, trocas culturais entre elas são frequentes, e sensações de Pink Floyd, Beatles, Jethro Tull, Rush e até Angra pipocam no decorrer da obra, além de toda a já mencionada brasilidade e as fortes referências a segmentos artísticos como artes cênicas, pintura, literatura, dança, entre outros, enriquecendo um trabalho genial.

"Unpuzzle!", ainda por cima, é um álbum conceitual, contando uma história situada em um museu onde acontece uma exposição artística "entre várias dimensões, e os personagens que vivem dentro dos quadros são ajudados por dois seres nascidos das tintas do artista criador das obras". As letras são muito bem compostas - além de bastante complexas, por serem muito abstratas. O disco foi gravado no AR-15 Studios, em Bebedouro/SP, e mixado e masterizado por Gustavo Carmo (que deixou várias contribuições instrumentais e composicionais) no mesmo estúdio, e no AK-47 Studio, em Seattle, nos Estados Unidos.

Excêntrico e esplêndido, o debut colheu pesadas críticas positivas que colocaram "Unpuzzle!" entre os melhores álbuns de 2011 e o Maestrick entre as melhores bandas, segundo veículos como Jornal Estadão, Whiplash, Roadie Crew e Rock Brigade, ao longo de 2011 e 2012. A banda acabou chamando a atenção lá fora, fazendo com que o trabalho fosse lançado mundialmente pela Power Prog Records em 2013. Além disso, participações em diversos festivais importantes entraram pro rol de memórias e conquistas do grupo, como no Roça 'n' Roll em Varginha (MG), e no ProgFest II em Lima, no Peru.

Em 2016, a banda começou a gravar o sucessor de "Unpuzzle!", que se chamará "Espresso Della Vita: Solare", e será lançado, provavelmente, em 2017. No entanto, enquanto material novo não é apresentado e já como um trio após as saídas dos guitarristas Danilo Augusto e Maurício Figueiredo, o conjunto aproveitou o ano para lançar o EP "The Trick Side of Some Songs", uma grande homenagem às suas maiores e mais clássicas influências.

Lançado novamente pela Die Hard Records, esse registro de 39 minutos de duração (contando a faixa bônus) busca ter o mesmo peso de um álbum completo, já que lança as bases de uma transição entre "Unpuzzle!" e o vindouro "Espresso Della Vita: Solare". A intenção, aqui, além da homenagem, é de criar um centro de inspiração para a própria banda, e ainda deixar registrado tudo aquilo que já vinham tocando ao vivo com frequência desde os primeiros tempos da banda.

Embora se trate de um trabalho "cover", ele não se limita a meramente reproduzir as canções originais, não - trata-se de uma verdadeira repaginada, com direito a novos arranjos, acréscimos do próprio estilo Maestrick, além de muitos medleys e referências ao álbum subsequente.

Calibrados, os caras já iniciam o EP com a introdução "Near-Brain Damage", adaptação de "Almost A Brain Damage", dos gigantes do Pink Floyd. Inclusive, mais adiante, a adaptação também interessantemente encerra o EP, concedendo à principal banda de Progressive Rock o devido destaque por abrir e encerrar um importante trabalho de puro tradicionalismo progressivo.

Após o "Pink Maestrick Floyd" abrir mostrando qual será a pegada e proposta do trabalho, vem um excelente medley do Yes, sensatamente intitulado "Yes, It's A Medley!". Trata-se de uma junção das canções "Soon", "Close To The Edge", "Roundabout", "Changes" e "Give Love Each Day" onde as versões originais parecem distantes, mas de um modo positivo. São nove minutos de uma ode à uma das principais influências do conjunto, algo já claramente notado anteriormente em "Unpuzzle!".

Na sequência de canções bastante alteradas, vem a dobradinha "The Ogre Fellers Master March Part I: The Battle" e "The Ogre Fellers Master March Part II: The Fairy and The Black Queen", cujas durações são mais curtas e a inspiração orbita outra grande influência sentida na musicalidade do conjunto: o Queen e as canções "The Fairy Fellers Master Stroke" e "The March of The Black Queen".

Após os grandiosos tributos e ainda antes do encerramento com Pink Floyd, posicionam-se covers de "Aqualung", do Jethro Tull, e "While My Guitar Gently Weeps", dos Beatles, que flertam mais com as versões originais e concedem um clima mais ameno ao andamento do trabalho.

Por fim, ainda vem uma passional faixa bônus. Com participação da Orquestra Belas Artes, "Rainbow Eyes", originalmente gravada pelo Rainbow, homenageia os cinco anos desde o falecimento de uma das maiores lendas do Heavy Metal mundial: o eterno Ronnie James Dio!

Apesar dos paulistas terem buscado se livrar das cruas amarras das ideias originais e enriquecer clássicos absolutos com seu próprio estilo - o que eventualmente ocorreu -, "The Trick Side of Some Songs" não comporta a mesma atmosfera intensa de "Unpuzzle!", e ouvi-lo esperando aquela mesma pegada seria um erro. As expectativas devem se posicionar no meio-termo entre o debut e as próprias bandas-referência do conjunto para que essa ótima obra não provoque qualquer tipo de quebra de expectativas. O EP pode ser baixado gratuitamente através do site oficial do Maestrick. Clique aqui.

Bom gosto e profissionalismo definem o Maestrick. Não se trata de aventureiros fazendo música apenas pelo esporte, mas verdadeiros músicos, cultos, com atitude, composição e gerência profissionais - e é muito bom ver uma banda brasileira nesse calibre e seriedade. Se você, assim como eu, levou uma eternidade para finalmente ouvir essa musicalidade genial, não perca mais tempo - adquira os trabalhos!

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 H.U.C. (EP) (2010)

01 - H.U.C.
02 - Aquarela

 Unpuzzle! (2011)

01 - H.U.C.
02 - Aquarela
03 - Pescador
04 - Sir Kus
05 - Puzzler
06 - Disturbia
07 - Treasures of The World
08 - Radio Active
09 - Smilesnif
10 - Yellown of The Ebrium
11 - Lake of Emotions

 The Trick Side of Some Songs (EP) (2016)

01 - Near-Brain Damage
04 - The Ogre Fellers Master March Part II: The Fairy and The Black Queen
05 - Aqualung
07 - Near-Brain Damage (Reprise)
08 - Rainbow Eyes (Bonus Track)

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domingo, 6 de novembro de 2016

Intense Desire To Kill - Discografia Comentada

Belo Horizonte e região metropolitana têm o ótimo costume de serem grandes celeiros para o Metal brasileiro, especialmente nas vertentes mais pesadas. Essa realidade, que nunca mudou, está em constante efervescência - assim como diversas outras localidades do Brasil -, e o Intense Desire To Kill é mais uma banda a surgir em um cenário regional privilegiado.

Sendo uma das responsáveis por agitar a localidade no que diz respeito ao Metal extremo, a banda surgiu por volta do início de 2015 na cidade de Santa Luzia, região metropolitana de Belo Horizonte, em Minas Gerais, com o ideal de executar um Death Metal assassino e sujo. Apesar das fotos até o momento apresentarem apenas três membros, trata-se, na verdade de um quarteto: André Luiz (vocal), Roger Lúcio (guitarra), Warley Alves (baixo) e Wesley Adrian (bateria), todos remanescentes da banda Mortifer Rage (exceto Roger), um dos conhecidos nomes do Brutal Death Metal local.

Com poucos meses de trabalho, a banda já tinha algumas composições prontas, faltando apenas entrar em estúdio para gravá-las. Passaram então o restante do ano de 2015 no Roffer Studio, em Belo Horizonte, registrando suas composições e sempre anunciando o status do processo em que se encontravam através da página oficial no Facebook. À altura de abril de 2016, o primeiro trabalho dos mineiros foi enfim lançado, de forma independente: o EP-demo de sete faixas "Next Victim... Just A Matter of Minutes...".

O registro compreende 22 minutos de uma musicalidade fechada e insana. A qualidade de produção é bem aceitável para o estilo, realizada de uma forma que deixa o som bastante sujo e pesado. O ITDK é considerado uma banda de Death Metal, mas a musicalidade, na prática, está alguns palmos mais abaixo, provavelmente devido ao fato de quase todos os membros serem ou terem sido integrantes do Mortifer Rage. O que se ouve é um Death Metal esmagador e obscuro, sim, mas com grande proximidade do Brutal Death Metal. Essa proximidade é melhor sentida no vocal de André Luiz, assentado em um cavernoso gutural fechado que também lança mão de outras técnicas, como o pig squeal, algo presente na faixa "Blessed Man Who Lives Without Religion", por exemplo.

Pouco tempo de duração não impede a banda de satisfazer os ouvidos e ainda ceder espaço a participações especiais; é o que acontece em "Disturbed By Fear", "Blessed Man Who Lives Without Religion" e "Macabre Murderer" - as duas primeiras contam com a participação de Djavan Fernandez (Mata Borrão) nos vocais e, a terceira, com Ricardo Vasconcelos (Coffinfeeder) na mesma função.

O instinto assassino e sangrento da musicalidade do conjunto é bem retratado na capa assinada por Marlon Darkness, que representa em tons escuros a silhueta de um assassino nas ruas indo encontrar sua próxima vítima, enquanto rostos de vítimas anteriores em desespero tomam forma na neblina.
A primeira tentativa do Intense Desire To Kill é boa. Provavelmente, algo ainda mais violento será entregue em um eventual primeiro álbum completo.

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 Next Victim... Just A Matter of Minutes (EP) (2016)

01 - Intro
02 - Next Victim... Just A Matter of Minutes...
03 - False Personality
04 - Blessed Man Who Lives Without Religion
05 - Disturbed By Fear
06 - Signs of Hatred
07 - Macabre Murderers

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sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Somberland - Discografia Comentada

Tem bandas que não precisam de muito pra fazer boas músicas. No caso dos catarinenses do Somberland, três elementos humanos são suficientes para sintetizar um Black Metal excelente e destacável. Se o elevado número de bandas do estilo espalhadas pelo mundo faz do Black Metal uma vertente rígida, onde o ouvinte já sabe premeditadamente mais ou menos o que esperar, então esse trio sulista vem para tornar as coisas um pouco mais interessantes, sem desgarrar do estilo.

Composto por E. Nargaroth (vocal e baixo), Orland (guitarra) e Wag (bateria), o Somberland foi fundado em Criciúma, no estado de Santa Catarina, e está em atividade desde 2015, sendo, portanto, ainda bastante jovem. Focado desde o princípio em executar Black Metal, o conjunto já sabia o que fazer e rapidamente, no início de 2016, lançou seu primeiro registro: o EP-demo "Dark Silence of Death".

O título quer dizer "silêncio negro da morte", mas a sonoridade vai na direção inversa, evidentemente - é o esmagador e violento som negro da morte. O Black Metal executado pelos catarinenses nesse trabalho é um pouquinho mais aberto e criativo, situando-se mais próximo daquele executado pelos suecos e finlandeses, distanciando-se da famosa vertente norueguesa. Os riffs são bem desenvoltos e carregados, ganhando peso com a boa produção. A bateria é seca, estando dentro do esperado do estilo, mantendo ritmos tradicionais de acordo com a passagem, mas também variando para os indispensáveis blast beats. O vocal de E. Nargaroth é um gutural rasgado, mas não tanto quanto o das bandas norueguesas. Sua técnica, sendo um pouco mais fechada - ainda assim, rasgada - é mais um fator que aproxima o clima geral da musicalidade àquele de bandas suecas.

São apenas três faixas, mas suficientes para provocar impressão positiva. Não são homogêneas, retilíneas e porradarias invariáveis, sem fim, como muitas vezes se espera do estilo. Elas têm balanço, tem harmonia, têm preocupação em serem atrativas sem perderem agressividade. Provas disso são as inserções de passagens mais calmas, levadas à base de contrabaixo e guitarra clean, maximizando o clima sombrio que as canções têm. Além de variações rítmicas dentro das próprias músicas, elas em si se portam de maneiras distintas também: "Forever Dark Wood" e "Into The Front" são mais violentas, enquanto "Fallen Angel", embora seja a de maior duração, tem um andamento mais cadenciado e soturno.

"Dark Silence of Death" dota de incontestável qualidade. Três excelentes e convincentes faixas brasileiras de Black Metal.

Outro detalhe interessante em relação ao Somberland é a não-utilização de corpse paint pelos integrantes. Ao invés disso, o trio se banha em sangue, ganhando uma aparência mais guerreira e sanguinária.

Aparentemente, o conjunto lançará seu primeiro álbum de estúdio em breve. A foto de perfil no Facebook foi recentemente atualizada e leva a inscrição "Voluntas Hominis", possivelmente o título do futuro debut. Tendo "Dark Silence of Death" em mente e a excelência praticada nele, pode-se esperar coisas boas sobre esse primeiro trabalho.

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 Dark Silence of Death (EP) (2016)

01 - Forever Dark Wood
02 - Fallen Angel

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domingo, 30 de outubro de 2016

Deadpan - Discografia Comentada

Costumo ser facilmente atraído por tudo que, de alguma forma, tenha a ver com alienígenas. Fico sempre curioso sobre o que um filme, livro ou música tem a falar sobre eles, como eles e os humanos são representados, que tipo de problemas (ou prováveis problemas) perpassam a inspiração para que ela recorra a seres de outras galáxias... a temática sempre transmite algum tipo de reflexão e expectativas de nossa sociedade. Exatamente por isso não foi difícil o power-trio catarinense do Deadpan capturar minha atenção, fazer-me travar os olhos na arte gráfica, folhear o encarte, ouvir e ler as músicas repetidas vezes.

Oriunda de Florianópolis, capital de Santa Catarina, a banda foi fundada em 2011, mas seu início efetivo pode ser considerado como tendo ocorrido apenas em 2014, já que questões de ordem pessoal levaram o conjunto a paralisar suas atividades por três anos. Renascendo com Gustavo Novloski no vocal e guitarra, André Barreto no contrabaixo e Igor Thiesen na bateria, com inspiração, criatividade e competência técnica, o power-trio trabalhou duro em seu primeiro álbum e o lançou já em 2015, sob o título "In Aliens We Trust".

Trata-se de um trabalho de estreia com qualidade como dificilmente se vê por aí em um primeiro momento, ainda mais em se tratando de um lançamento independente: a produção de Júlio Miotto é excelente e limpa, o encarte é bonito e detalhado nas informações, as letras realmente querem transmitir algo direcionado e aproveitável - ou seja, distante de temas aleatórios - e o afinamento técnico dos músicos é chamativo em seu muito bem trabalhado Progressive Thrash Metal. Tais atributos positivos e profissionais em uma banda que até então tem pouquíssimo tempo de estrada e ainda está em seu primeiro disco delineiam mentes ambiciosas e mãos experientes e talentosas.

Sabe aquela piada que dizemos quando alguém faz algo estúpido e falamos "é por isso que os aliens não visitam a gente"? É em torno dessa ideia de falha humana que a temática do disco está assentada. Ele conta a primeira parte da história de uma entidade alienígena chamada EoN, representante de uma raça de grande poder e sabedoria responsável pela manutenção do equilíbrio - aparentemente moral; o encarte não especifica - do universo. Uma vez que a humanidade, com sua ganância e a crescente impessoalidade, dirige-se gradativamente para o caminho do desespero e sua própria destruição, EoN viaja à Terra para estudar os costumes e ideias da raça humana e, com esse conhecimento, restaurar o equilíbrio com intervenções indiretas, tal como já havia feito em outros planetas. Para concretizar o objetivo, escolhe o menino Adam como experimento de contato indireto, e assim inicia seus estudos e planeja estratégias. A história, portanto, acompanha EoN e Adam.

Apesar do envolvimento alienígena na história trazer pré-concebidamente a ideia de que as letras serão futuristas e bastante alienígenas (meio que "distantes da realidade", digamos assim), as seis faixas do trabalho provam o contrário. O ano é 2015 e, na realidade, uma vez que se tratam de análises de EoN em sua tentativa de nos compreender, as músicas acabam por ser, na verdade, reflexões críticas de nossa própria sociedade atual, analisando a maneira como agimos em diferentes contextos sociais, o que pensamos, o que consideramos uma vida bem-sucedida (dinheiro realmente é tudo?), as doutrinações, entre outras coisas, sempre evidenciando as contradições e desumanizações emanadas de determinados pensamentos e atos modernos. Claramente, em apenas 24 minutos, temos uma enxurrada de críticas ao sistema capitalista, ao sistema educacional, às religiões, ao suposto esvaziamento da moralidade, à "mecanização" do pensamento - ou seja, ausência de filtro crítico ou a falta de preocupação em desenvolvê-lo -, aos vários padrões contextuais da cultura ocidental, etc.. Tal proposta define uma banda que inteligentemente cruza temática ficcional com críticas de embasamento empírico, tornando tudo bastante interessante. Os rapazes realmente querem passar algo com as letras e a inspiração, a vontade de se expressar, pode ser sentida em seus conteúdos. Okay - a composição e a inspiração lírica não são (ainda) apresentadas de forma a serem definidas como a oitava maravilha do mundo; há injustas generalizações, informações faltando que deixam o contexto aberto e demonstram maturidade ainda incompleta na elaboração de uma trama (é meio clichê, até), determinadas críticas, como a sobre a competitividade, não chegam a superar o senso comum e a própria crítica acaba até por desumanizar aquilo que eles criticam por estar se desumanizando... Enfim, algumas reflexões podem ser melhor refinadas e ampliadas. Mesmo assim, dificilmente uma banda se dispõe a colocar esses debates na mesa de forma tão atraente e eficaz. Não é à toa que a parte lírica por si só está recebendo grande e positiva atenção nesse texto.

Musicalmente, o Deadpan se diz influenciado pelo Death Metal e é divulgado como Progressive Death Metal. Porém, honestamente, dou-me a liberdade de discordar e defini-los como Progressive Thrash Metal. Aos meus ouvidos, se a complexidade da estrutura composicional e a rapidez diferentes notas fossem retirados, mantendo certa retilinearidade, velocidade de batida e a timbragem dos instrumentos, teríamos um exímio Thrash Metal puro e tradicional, de muita qualidade. A afinação não é tão grave, a produção não é tão densa, muito embora os vocais de Gustavo de fato estejam centrados nos guturais típicos do Death Metal. Acima dessa base, o Progressive Metal vem para complexificar, somar e dar ainda mais lucidez e personalidade para essa brilhante sonoridade.

Aquelas notas apelativas e velozes que são esperadas de uma banda de Prog Metal são encontrados no Deadpan, e o peso, rapidez e violência das músicas transformam o disco numa experiência bastante convincente e sugadora. A bateria de Igor, em ótima performance e timbragem, só vem a ditar com muito calor o ritmo das canções, levando à bateção de cabeça. Infelizmente, não há solos de guitarra e, apesar do Progressive Metal acoplado na arquitetura dos riffs, tal influência não se estende à duração das faixas, que têm, em média, 4 minutos de duração.

Em vista da quantidade de faixas (apenas 6) e da duração total delas (24 minutos), considero "In Aliens We Trust" um EP, muito embora seja divulgado como um full-length. Entretanto, rótulos são rótulos, e no caso do Deadpan, isso não importa. Uma grande banda sulista está em atividade no cenário nacional e ela deve ser ouvida. Não haverá arrependimentos, com certeza. Olho nesses caras, que ainda trarão mais lançamentos interessantes e ainda mais maduros no futuro!

A arte gráfica do registro tem o próprio vocalista/guitarrista Gustavo Novloski como responsável. Todas as letras foram compostas pela banda. O encarte traz breves notas antes de cada música, sempre escritas em português mesmo, de forma a situar o leitor/ouvinte sobre as inspirações e que o que está acontecendo naquele momento da história. As linhas de bateria foram gravadas no The Magic Place Studio e os demais instrumentos e vozes, no Calamar Studio, ambos em Florianópolis mesmo. A distribuição de "In Aliens We Trust" (título que brinca com o 'slogan' "in God we trust", presente nas cédulas estadunidenses) é reforçada pela assessoria de imprensa Sangue Frio Produções.

Após o lançamento, André Barreto deixa a banda e sua vaga no contrabaixo é ocupada por Anderson Biko.

Se você costuma ser desacreditado quanto à cena nacional e subestima o potencial das bandas de nosso país, o Deadpan pode lhe render uma experiência de amargura pela expectativa contrariada e de doçura pela qualidade desse power-trio catarinense.

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 In Aliens We Trust (2015)

02 - Unmasked Living
05 - Standard
06 - Two Faces

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sábado, 29 de outubro de 2016

Burnkill - Discografia Comentada

Quem anda antenado no que a cena brasileira tem oferecido nos últimos anos, certamente percebeu que, além do aumento do número de bandas se lançando no mercado, também cresceu a quantidade daquelas que se propõem a cantar no idioma materno. Cada vez mais vem caindo por terra o argumento de que português não combina com o peso do Metal, já que é tudo uma questão de estética composicional. Não existe uma regra sobre como compôr. Cada compositor faz à sua maneira, variando entre primeiro letra e depois instrumental, ou o inverso, ou ambos ao mesmo tempo. No entanto, de fato, a arquitetura musical não deve levar em conta apenas a estética instrumental, mas também a linguística - daí o cuidado que se deve ter com os idiomas.

Nascida em Pouso Alegre, no interior de Minas Gerais, a banda Burnkill é mais uma do rol das que escrever músicas em português. Em atividade desde meados de 2014, o conjunto tem a ambição não apenas de ser mais um no cenário, mas de realmente ter algo a transmitir com suas mensagens musicais. Por isso, garante, através das letras em português, que o público "local" imediato - refiro-me a nível nacional, claro -, entenda suas letras, que versam criticamente sobre problemas sociais, atitudes humanas, incoerências, hipocrisias, e a fatalidade de determinadas escolhas - tudo ao mesmo tempo em que busca fazer um Thrash Metal enraizado, sem, apesar disso, soar genérico. Seu nome provém da inspiração na mistura entre o trecho "first you got to burn, burn, burn in fire" da faixa "Heaven and Hell", do Black Sabbath, e o nome da canção "Overkill", do agora extinto Motörhead.
Assaborando sua musicalidade, que ainda está nos primeiros anos de estrada, as influências de bandas como Claustrofobia, Sepultura, Dorsal Atlântica, Sarcófago, Sodom, entre outras podem ser de alguma forma sentidas. São referências pontuais dos mineiros, que procuram executar uma sonoridade que estabeleça maior coerência com sua própria personalidade.

Atualmente configurado como um quinteto composto por Antony Damien no vocal, Lucas Maia e Pablo Henrique nas guitarras, Jorge Luiz no baixo e Anderson de Lima nas baquetas, o Burnkill lançou em 2016 seu primeiro trabalho: o álbum "Guerra e Destruição". O trabalho foi produzido no Rota 976 Studio e vem sendo distribuído pela assessoria de imprensa Roadie Metal.

Desde o primeiro momento, o que já imediatamente chama a atenção na obra é a questão da produção, que esbarra em claras limitações técnicas. Ela é suja e fraca, provocando aquela sensação incômoda de abafamento e embaralhamento das linhas instrumentais. É evidente que uma produção de ponta tem altos custos, o que acaba não se tornando alcançável para toda e qualquer banda. Ainda assim, uma de qualidade mais fraca não deixa de ser um ponto negativo, pois atrapalha a degustação. No entanto - como já deve ter acontecido com muitos -, no decorrer do trabalho, é possível se acostumar com o que a banda tema a oferecer nesses quesitos técnicos, e a atenção se finca melhor no que está sendo feito.

Apesar do criticável cartão de visitas da produção, o que os mineiros fazem ao longo de meia-hora de música é interessante e até promissor. Eles apresentam uma sonoridade calcada no Thrash Metal ao estilo Sepultura e Claustrofobia - coerente com suas influências -, com riffs muito bem arquitetados desde os efeitos sentimentais que as notas provocam até o ritmo em que são tocados. Uma das mais notáveis é a própria faixa-título, que tem alavancadas na base que aludem ao apocalipse que é a guerra e a destruição, como sugere o nome.

Embora apresente predominância do bem tocado Thrash Metal, a banda também não deixa de demonstrar, com bastante naturalidade, enviesamentos para outros estilos compatíveis, como o Heavy Metal tradicional e o Death Metal. Esse último pode ser melhor percebido já na primeira faixa, "Corredor da Morte", que é mais pesada e o vocal de Antony Damien é mais puxado para o gutural fechado do que para o vocal raivoso e driveado, a caráter de Max Cavalera. Quanto ao Heavy Metal, ele não aparece como predominante, mas como anexo, deixando que suas nuances sejam percebidas ali e acolá ao longo do disco.

Se letras em português geralmente são um problema para alguns ouvintes, no caso do Burnkill, não há por que pegar no pé em relação a isso. Tal fato se deve por questões que se misturam entre o positivo e o negativo: no positivo, porque a maioria das músicas parecem ter sido compostas em torno da fonética do português, auxiliando na naturalidade delas; no negativo, porque, em outras, a produção e a própria pronúncia, combinados, não são tão compreensíveis, afastando o ouvinte, quando distraído, da percepção de que são de fato letras em português.

"Guerra e Destruição" é composto por oito faixas, mas a última, "Sinfonia da Guerra", foi gravada ao vivo e incluída mesmo assim.

Ainda assim, em um olhar geral, "Guerra e Destruição" é um ótimo pontapé inicial para a banda, que provavelmente trará algo ainda mais maduro e desenvolvido no próximo trabalho. Enquanto esse debut não receber uma remasterização (se receber um dia), seu potencial continuará eclipsado para o público mais exigente com esse tipo de coisa.

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 Guerra e Destruição (2016)

01 - Corredor da Morte
02 - Vivendo Uma Ilusão
04 - Repressão
05 - Cadáver do Brasil
06 - Tempestade de Horror
07 - Chega de Mentiras
08 - Sinfonia da Guerra (Ao Vivo)

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segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Dying Suffocation - Discografia Comentada

A cidade é Pato Branco, no interior do Paraná, mas lá existe uma banda que pinta o nome do município em cores mais sombrias, contrariando a ideia radiante de paz e tranquilidade que o nome transmite. Essa banda é o Dying Suffocation, cuja sonoridade tem como proposta exatamente a asfixia da luz para dentro da escuridão, levando-a para uma dimensão densa, ofegante e obscura.

Fundada em novembro de 2014, a banda procura concretizar a negra proposta através da execução de um pesado e cadenciado Doom/Death Metal, como pouco se vê em solo brasileiro. O trio fundador era composto por Alex Habigzang na guitarra, André Kichel no baixo e Jorge Kichel na bateria. Em pouco tempo, a formação engordou com as chegadas do vocalista Cláudio Daniel e do guitarrista Fábio Conterno já no início de 2015, fechando a formação que lançaria, já em agosto daquele mesmo ano, o primeiro trabalho do conjunto: a demo "Dying Suffocation", de duas músicas.
Um dos frutos dessa demo foi o lançamento do videoclipe 'homemade' da faixa "The Angels", que obteve boa repercussão no exterior e culminou em sua inclusão na coletânea "Son of Carnival of Carnage", lançada pela Terrorizer, revista britânica de Rock/Metal.

Alguns meses mais tarde, em dezembro de 2015, mais um pequeno disco independente é lançado pelos brasileiros: agora é a vez de "When I Die", o primeiro EP da discografia. Gravado no Studio Musical Box, localizado em Pato Branco mesmo, e produzido pela própria banda em parceria com Júlio César, "When I Die" é uma obra de quatro faixas que totalizam 32 minutos de duração. Entre as faixas presentes, duas já faziam parte da demo anterior ("The Angels" e a faixa-título), mas foram regravadas, e outras duas ("In Search of Salvation" e "Rivers of Blood") são totalmente inéditas.

Instrumentalmente, os paranaenses fazem aquilo que o Doom Metal se propõe a fazer: entregar riffs bem distorcidos, cadenciados e sujos, remetendo claramente à forte influência tradicional que o Black Sabbath de seus primeiros tempos exerce sobre eles. Embora apresente também "Death" no rótulo, este não aparece com grande ênfase na sonoridade, tornando-a mais Doom mesmo. A pegada obscura e bastante cadenciada torna as músicas algo para se ouvir como plano de fundo, já que facilmente envolve o ouvinte em uma aura turva e cavernosa. Por vezes, a a musicalidade lembra a bandas de Funeral Doom Metal, como o Ahab. Um metrônomo um pouco mais lento tornaria possível alterar o rótulo.

Se a imersão provocada é um ponto positivo, outro nem tanto é a duração das faixas, que geralmente chegam a quase 10 minutos de duração. Quer dizer, não haveria problema algum na duração delas se os riffs variassem de andamento e composição no decorrer desse tempo. Certamente, eles são marcantes, memorizáveis - o que auxilia a gostar da banda -, mas o prolongamento da postura torna a experiência um tanto cansativa, por vezes monótona - ao menos pra mim, que tenho preferência por algo mais pegado, sem que isso signifique não gostar de cadência de vez em quando. Um pouco mais de inserção de Death Metal e a sonoridade ganharia mais vigor, e as passagens variariam, de maneira mais ou menos similar ao que faz o Swallow The Sun (apesar do lado Death dos finlandeses ser mais puxado pro melódico).

Sobrepondo a postura "sabática" do instrumental, vem o excelente e cavernoso gutural de Cláudio Daniel, que sutilmente varia entre imprimir guturais fechados e guturais rasgados e abertos. É nas vozes que a veia Death Metal definitivamente se manifesta, porém, em coerência com a proposta, também de maneira cadenciada. Sua técnica a grande responsável por coroar e mortificar a densidade instrumental, conferindo a ela uma aura demoníaca. Em perfeita sincronia com o instrumental, suas linhas também não variam muito o andamento - afinal, trata-se de um imersivo Doom Metal.

O trabalho foi bem aclamado pela crítica brasileira e internacional, rendendo inclusive a participação em mais coletâneas, como a Extreme Hell Vol. 2 e a Roadie Metal Vol. 8.

Dentro do que o Dying Suffocation se propõe a fazer, é certo que o faz bem, e o público-alvo há de concordar sem receios. Está no caminho certo, e se a banda seguir ativa, boas obras de Doom Metal eventualmente serão lançadas, tendo como aliada a natural maturidade que os anos de união e refinamento do projeto concedem. No entanto, ainda está relativamente crua - mesmo dentro da crueza óbvia do esquema - e música longa com quase o mesmo andamento o tempo todo não é característica que me prenda, mas por uma questão pessoal. Os adeptos do estilo discordarão prontamente.

Atualmente, a banda vem reestruturando seu line-up, que sofreu baixas em 2016 com as saídas do vocalista Cláudio Daniel e do guitarrista Fábio Conterno. Para as seis cordas, Dianriel Duarte foi recrutado, mas o posto de vocalista segue, por enquanto, vago. O Dying Suffocation promete novidades em breve. Uma delas provavelmente diz respeito ao novo vocalista, e outras serão referentes ao álbum de estreia, que já está tomando forma. Ele se chamará "In The Darkness of Lost Forest" e talvez saia ainda em 2016.

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 Dying Suffocation (Demo) (2015)

01 - The Angels
02 - When I Die

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 When I Die (EP) (2015)


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domingo, 23 de outubro de 2016

Vulcano - Wholly Wicked (2014)

Banda: Vulcano
Álbum: Wholly Wicked
Ano: 2014
Gênero: Death/Thrash Metal
Origem: Santos, São Paulo - Brasil
Membros na gravação: Luiz Carlos Louzada (vocal), Zhema Rodero (guitarra), Ivan Pellicciotti (baixo) e Arthur Von Barbarian (bateria).

Bandas, independente de quais sejam, geram expectativas - algumas boas, outras ruins. Porém, determinadas bandas vão além dessa natural e previsível dicotomia, fazendo com que esperemos algo a mais, especialmente se essa expectativa for positiva. O quanto se espera de um conjunto conhecido como um dos pioneiros do Metal extremo no país? Qual a responsabilidade de um grupo que, desde o início dos anos 80, mesmo com as limitações e dificuldades impostas tanto pela situação tecnológica quanto por um governo ditador, segue acreditando em sua música, realizando shows e lançando discos? Certamente, enorme.

Veteranos como os santistas do Vulcano são, espera-se lucidez à altura dos mais de 30 anos de estrada. Logo, cada novo álbum traz a expectativa de um trabalho bem feito em seus mínimos detalhes. Felizmente, é isso que o quarteto entrega em "Wholly Wicked", o nono e mais recente álbum da discografia, lançado em 2014 pela Renegados Records, distribuído pela Mutilation Productions e com divulgação reforçada pela assessoria Sangue Frio Produções.

Gravado e produzido no Beco Studio, em Santos (SP), "Wholly Wicked" traz toda a violência de uma fusão sucinta entre Death e Thrash Metal, concebida por mãos e mentes experientes. São apenas 10 faixas de curta duração (totalizando somente 32 minutos), mas cuja sonoridade é tão rápida quanto. Não se trata de uma Death/Thrash Metal cadenciado, preocupado com a desenvoltura e complexidade composicionais, mas sim de uma musicalidade objetiva, onde o foco é fazê-lo se sentir contagiado pela fúria e velocidade, levando-o a bater cabeça - mas, claro, tudo feito com extrema competência, longe de qualquer molecagem.

A produção claríssima só faz acrescentar ao produto final, conferindo um ar moderno aos pesados e energéticos riffs, ao mesmo tempo em que não se deixa esvair a clara influência que os gigantes do Slayer exercem sobre os brasileiros. Palhetadas empolgadas na guitarra, dedos apressados no pulsante contrabaixo e um excelente e caótico trabalho com as baquetas, aplicando bastante blast beats, configuram a personalidade do marcante instrumental desenvolvido pela banda. Esse instrumental, embora deixe clara a sensível fusão entre Death e Thrash, pende com bem mais força para o Thrash Metal, envolto ainda numa natural pendência à característica da vertente Speed do estilo. O resultado é fantástico e cheio de adrenalina.

A contribuição do Death Metal fica mais evidente mesmo no vocal de Luiz Carlos Louzada, que é assentado no gutural rasgado clássico do estilo. No entanto, a performance recebe doses do lado thrasher da proposta, podendo ser notadas principalmente na maneira como as linhas vocais são compostas: uma perfeita mistura entre a técnica do Death e a atitude Thrash.

Como resultado, temos um álbum prazeroso e bem feito pra caralho, à altura de uma banda madura e reconhecida pelo seu tempo de estrada. Pra quê complexidade quando a objetividade e homogeneidade impressionam e satisfazem por si só?

Quem até hoje ainda não deu uma chance a esses dinossauros, poderia mudar de ideia o quanto antes.

01 - The Tenth Writing
02 - Pentagram
03 - Daughters of Pagan Rituals
04 - Infusion of Hatred
05 - The Return of A Long Night
06 - Thirst For Vengeance
07 - Wholly Wicked
08 - Tormented
09 - Malevolent Mind
10 - Blowing Death

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sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Konad - Discografia Comentada

Creio estarmos acostumados a uma realidade onde muito se precisa batalhar para ter seu trabalho reconhecido, e recorrer à parcerias com sites e blogs tem se mostrado uma ferramenta comumente utilizada e também efetiva. Em um mundo com maior circulação de informações graças ao advento da internet, cresce também o número de bandas querendo provar seu melhor e, consequentemente, a concorrência. Sabemos: aqui no Brasil, além de muita concorrência, há também dificuldade de apoio, e as bandas se lançam em batalhas diárias para se reafirmar. Algo similar acontece em Portugal, onde boas bandas têm dificuldade de chegar ao conhecimento de mais pessoas, mas procuram, dia após dia, firmar-se no circuito local, para então conseguir brecha no âmbito nacional e, por que não?, no mundial.

Uma dessas boas bandas lusitanas que provam ter valor mas infelizmente não chegam a nós é o Konad. Formado em Vila Franca de Xira, em Lisboa, no ano de 1996, inicialmente sob o título Konad Moska, o conjunto aposta, ao longo de sua discografia, em diferentes maneiras de manifestar o Punk Rock, sempre com algo a mais para acoplar positivamente à musicalidade, até que, certamente, chega à sua melhor fase até o momento com o álbum "Irae Dei", de 2015.

O início o grupo não foi dos mais agitados. Apesar de ter começado tudo em 1996, somente em 1997 aconteceu a primeira apresentação ao vivo, realizada no Lusideia Bar, em Samora Correia, mas pouco depois as atividades cessaram definitivamente e a banda se extinguiu.

Três anos mais tarde, em 2000, após trocar alguns parafusos na formação, seus amplificadores voltaram a funcionar em consonância, devido à reativação dos trabalhos. A formação esteve fixa ainda até 2006, embora as atividades musicais oscilassem por motivos diversos. De qualquer forma, essa fase marcou o início das composições dos dois primeiros trabalhos dos portugueses: as demos "Mundo de Merda", lançada em setembro de 2007, e "Demo 2007", lançada no mês seguinte, já com a banda nomeada simplesmente como Konad.

Ambas as demos têm como similaridade a execução da forma tradicional e pegada do Punk Rock, aliada a letras que em parte são críticas sociais e econômicas, e em parte têm cunho humorístico, seja em revolta focalizada em algum assunto pertinente, ou mesmo a cólera pela graça de arrancar risadas. Vide a canção "O Kão do Anão", penúltima da segunda demo; muito bem humorada, faz uso até de efeitos de acordeão para dar ainda mais o ar da graça! Apesar de alguns detalhes interessantes de solos, ou da escolha excêntrica de recursos externos pro estilo (como na cômica faixa já citada), as construções composicionais são como se espera do estilo: simples e rápidas. A abordagem vocal é majoritariamente 'driveada', mas vozes limpas também são utilizadas em algumas faixas.

O fato de se tratarem de demos de quase 10 anos atrás acaba demonstrando também as limitações de equipamento, por isso a sonoridade é um tanto abafada, de gravação amadora. No entanto, rústico como o Punk tradicional se propõe a ser, isso acaba por não ser exatamente um problema, muito embora, se a gravação fosse limpa, a coisa seria boa também. A primeira demo traz em torno de 16 minutos de música, enquanto a segunda, um pouco menos: 13 minutos totais.

Mais um longo tempo de quatro anos se estendeu até que o próximo lançamento tomasse forma - o EP "Terror TV" só foi concebido em 2011. O tempo fez bem à banda. Com cinco faixas e 15 minutos de duração, este EP se mostra mais bruto. De produção um pouco melhorada, é aqui que os portugueses começam a inserir elementos de Thrash Metal na sonoridade, o que agregou peso à proposta. A postura está mais séria e a sonoridade está mais pesada. O Punk continua sendo o elemento central, mas o Thrash Metal presente em especial nas três primeiras faixas torna as composições mais firmes e dinâmicas. A postura vocal está ainda mais agressiva, mas mantém as características de ritmo e pronúncia do Punk. Um detalhe que retrocedeu concerne à ausência de solos, que são algo que sempre sinto falta, pois os encaro como clímax das músicas. Eles estão presentes apenas em "Ké Keu Faço", e a postura é excelente, remetendo ao Thrash.

"Terror TV" foi um aquecimento para o tardio lançamento do primeiro álbum de estúdio completo da banda, intitulado "Café Beirute" e lançado em 2012. Esse registro de estreia consolida a musicalidade da banda como uma coerente fusão entre Punk Rock, Hardcore, Thrash Metal e Crust. Os estilos se encontram em invejável harmonia, gerando canções que, embora rápidas, são um verdadeiro ataque de peso e velocidade aos ouvidos. A postura é realmente frenética, levada à base de riffs pesados, pegados e caóticos, bateria insana, baixo pulsante e uma abordagem vocal mais rasgada, aproximando-se daquela executada no Black Metal. Talvez uma das bandas que mais se assemelhem ao que é feito aqui pelos portugueses seja o Toxic Holocaust.

Certamente a fusão é inteligente e madura no álbum, mas a heterogeneidade foi meio que posta de lado. As 16 faixas que compreendem os 34 minutos totais do trabalho são demasiadamente similares entre si, tornando o trabalho denso, embora bom e de produção excelente. Não há muita variação na base rítmica, as bases são frequentemente similares e os solos de guitarra foram praticamente extintos, bem como aquela antiga faceta humorística. Solos de guitarra só podem ser ouvidos em "Não Submisso" e "Burako Negro", enquanto o humor só está presente, com toda sua irreverência lusitana, na última faixa, "Vaka Cinzenta" - o próprio nome já alude a isso.

Trata-se de um ótimo álbum, mas retilíneo demais, com homogeneidade em excesso. A única exceção é a própria faixa-título, que é muito bem trabalhada, com uma introdução limpa e misteriosa e andamento cadenciado quando o peso das distorções enfim entra. Seu clima misterioso e obscuro é fantástico, como se algo de ruim estivesse prestes a acontecer!

A avaliação geral é positiva, sem dúvidas, apesar de alguns detalhes. "Café Beirute" é um ponto de paradigma, já que lança as bases definitivas da musicalidade do Konad, que está mais à vontade, tendo encontrado seu perfil. O desenvolvimento da proposta veio em 2015, com o lançamento do excelente "Irae Dei" e a consolidação da formação atual, contando com Kampino no vocal, Frazão na guitarra, Márcio no baixo e André na bateria.

Gravado no Rec In Red Studios, em Vila Franca de Xira, e masterizado na Suécia por Magnus Andersson em seu Endarker Studio, "Irae Dei" é um pouco mais enxuto (28 minutos de duração), ainda mais homogêneo, e especialmente mais agressivo e próximo do Toxic Holocaust. O vocal de Kampino se apresenta em guturais rasgados plenos, cantados com feracidade de modo que as palavras se tornam difíceis de compreender. O Crust atrelado ao Punk/Hardcore/Thrash Metal está mais evidente, tornando essa avassaladora sonoridade mais crespa e crua. Com distorções menos claras, o álbum perdeu peso em relação a "Café Beirute", mas ganhou velocidade e uma sonoridade apocalíptica, que entrega ainda mais ira ao ouvinte - algo sugerido pelo próprio título, latim para "Ira de Deus"; logo, uma sonoridade apocalíptica, repleta de ferocidade, como uma ira divina.

Foram pelo menos 16 anos até que finalmente os portugueses lançassem o primeiro álbum de estúdio. Apesar da demora, ocasionada por inúmeros imprevistos, a banda acumulou experiência e esse tempo de estrada e a determinação em não desistir de fazer música são fatores que contam a favor dos caras. A sonoridade se consolidou, uma personalidade foi alcançada - e continuará sendo refinada - e os discos começaram a fluir em seus lançamentos. A linearidade composicional é marca de parte dos estilos executados por eles e, apesar de, para ouvintes mais adeptos de outros estilos (como eu) isso ser um ponto contra, a sonoridade é muito boa e a agressividade é matadora. Se procura bandas na linha do Hardcore/Punk/Thrash, é certo que o Konad satisfará suas necessidades.

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E-mail: konad2007@gmail.com

TELEFONES:
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(+351) 932 641 702 (Kampino)


 Mundo de Merda (Demo) (2007)

01 - Eu Sou Vesgo!
02 - Mundo de Merda
03 - Kem Paga A Cirrose?
04 - O Kão do Anão
05 - Filho da Puta
06 - Vaka Louka
07 - Konad Moska Kom Kapa (Demo)
08 - Kasal Ventoso

Ouvir (Bandcamp)

 Demo 2007 (Demo) (2007)

01 - Vendedor de Almas
02 - KGB
03 - Putiklube
04 - O Kão do Anão
05 - Filho da Puta

Ouvir (Bandcamp)

 Terror TV (EP) (2011)

01 - Mundo Incerto
02 - Ser Livre
03 - Ké Keu Faço
04 - Detalhes
05 - Kaos Total (Versão Kaos09)

Ouvir (Bandcamp)

 Café Beirute (2012)

02 - Komboio Fantasma
03 - Porcos Malabaristas
04 - Luta ou Morre
05 - Devotos
06 - Filhos do Ódio
07 - Mentekabra
08 - Soldado do Inferno
09 - Café Beirute
10 - Alienação
11 - Choque Global
12 - Não Submisso
13 - Assim É Ke Estou Bem
14 - Burako Negro
15 - Manifesto
16 - Vaka Cinzenta

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 Irae Dei (2015)

01 - Revelação
02 - Predestinação
03 - Irae Dei
04 - Enclaustro Mental
05 - Necroritual
06 - Um Veneno
07 - Retratos de Uma Vida Banal
08 - Crimes de Guerra
09 - Irmãos de Sangue
10 - Apocalipse
11 - Direito À Raiva
12 - Arde No Inferno
13 - Vlad
14 - Inverno Nuclear

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